Gustavo Carneiro – Uma lição de vida

Conforme foi mencionado no Post da Ultra Fiord, tomamos a liberdade de inserir um homem na página das Maria’s. Ele nos deu uma lição de vida antes no dia em que aconteceria os 70 km da Ultra Fiord 2018,  prova essa que foi adiada em função das cruéis intempéries que assolaram aquelas bandas na noite anterior ao dia da largada.

Se pararmos para pensar, e ao longo da história verificaremos que o Gustavo ao participar  da prova dos 30 km na Ultra Fiord, esteve no percurso durante todo o período que as inclementes condições climáticas varreram a região do Fiord de la Última Esperanza na inóspita e castigante patagônia chilena.

Entrem nessa história, ao final garanto que todas  estarão  motivadas, com energia renovadas e prontas para  novas metas na busca de seus objetivos, sejam na vida ou sejam no trailrunning.

 

Olá Marias!!!
Um grande prazer estar aqui contando um pouco da minha história para vocês.
Dei uma olhada no site e que legal todo esse envolvimento entre vocês e com o trail run.
Sou mineiro, nascido em Uberlândia, 45 anos, administrador, pai de 2 filhas (Jessica 24 e Iasmim 7), atleta amador desde sempre e desde out/17 deficiente físico.
Desde a infância minha vida esteve envolvida com vários esportes. Acho que esse é um talento que Deus me deu, sempre tive muita facilidade e isso resultou em títulos em diversas modalidades.
Comecei cedo na natação, passando pelo futebol e aos nove anos comecei no tênis, esporte que é a minha paixão.
No tênis fui campeão mineiro algumas vezes e um dos melhores do Brasil.
Campeão Mineiro e Brasileiro de Peteca, Campeão Brasileiro de Squash.
Praticante de moutain bike desde 2001, em 2009 fui para a Cordilheira dos Andes fazer uma travessia da Argentina até o Chile.
E a corrida nisso tudo? Comecei cedo, com 15 anos já ia e voltava correndo para o kung-fu. E não parei mais, é o único esporte que sempre fiz em paralelo com os demais.
Desde criança eu tinha o sonho de correr uma maratona, era algo que eu admirava muito. Como uma pessoa consegue correr 42km? Minha primeira maratona só foi acontecer em 2016 por um motivo que contarei abaixo. Eu poderia ter corrido há muito mais tempo, mas por não focar, por estar praticando outro esporte fui deixando o sonho de lado. Me contentava em correr as meias maratonas.
Em 2010 parei de correr, jogar tênis e squash porque estava com tendinite patelar, sentia muita dor nos esportes de impacto. O médico disse que nunca mais eu poderia fazer esses esportes. Foi duro escutar isso, então fiquei só na bike.


Em 2013 minha vida começou a mudar, fisicamente e mentalmente. Descobri um câncer abaixo da batata da perna esquerda. Foi um choque muito grande me imaginar com essa doença.
Muitos detalhes nesse processo, cogitaram amputar a perna nessa época, mas o resumo é que fiz a cirurgia em São Paulo e precisei retirar somente um pouco de músculo da panturrilha até bem perto do pé.
Fiz quimioterapia durante 6 meses e no final 30 sessões de radioterapia. Finalizei o tratamento em dezembro de 2013.
Em 2014 voltei a pedalar e comecei a treinar na equipe máster de natação do meu clube. No final do ano percebi que meus joelhos estavam sem as dores que sentia, fui em outro médico e ele liberou a corrida e ainda me disse “você pode correr até maratona se quiser”.
Já sai do consultório e fui comprar um par de tênis. Corri tanto nos primeiros dias que machuquei a perna da cirurgia. Essa perna só ficou boa para correr forte em Abril de 2015 e foi aí que decidi fazer a minha primeira maratona. Em Maio de 2016 completei a Maratona do Rio de Janeiro.
A vida seguiu normal, trabalhando, treinando e fazendo os acompanhamentos necessários.
Até que em Outubro de 2017 descubro que o tumor tinha voltado e numa região que não dava margem para retirar e preservar a perna.
Em 21 dias descobri e amputei a perna.


Chorei só no primeiro dia quando descobri. Depois eu só conseguia ver o lado positivo de tudo, eu ficaria vivo e colocaria uma prótese. Estava ótimo! E se a doença estivesse se espalhado? Graças a deus que não! Então estava tudo bem!
Fiz a cirurgia numa segunda, dia 23/10. E no fim de semana que antecedeu eu fiz tudo que podia fazer com essa perna, acho que ela até agradeceu quando a tiraram de mim rsrsrs.
No sábado joguei tênis de manhã, a tarde fui jogar tênis na cadeira de rodas para ver como era, depois fui numa corrida noturna da Track & Field. E no domingo eu organizei uma corrida com 10 amigos para me despedir, mas foram 250 pessoas correr comigo, foi muito emocionante.
Fiz a cirurgia e a cabeça continuou boa. Daí em diante não parei mais, em 14 dias já estava na musculação, em 21 nadando e 30 dias após a cirurgia, estava eu  jogando tênis na cadeira de rodas.


Hoje o meu pensamento é que não quero passar a vida sem tentar fazer tudo que eu tenho vontade, não quero ficar velho e olhar para trás e pensar que poderia ter feito mais. Eu quero olhar para trás e ter a certeza que fiz o meu máximo, consegui algumas vezes e outras não, faz parte da vida. Sempre tive vontade de correr a maratona, mas porque demorei tanto pra fazer isso? Precisei passar um susto na época para me motivar? Também tinha vontade de surfar, nunca tinha tentado, em fevereiro fui pra Florianópolis e surfei com uma perna.
Em Janeiro tive a ideia de fazer uma prova caminhando já que correr iria demorar. Tinha comprado a prótese só há 20 dias. (é uma prótese só para andar)
Queria uma prova que me marcasse, que fosse especial, escolhi a Ultra Fiord e não poderia ter sido melhor.


Comecei a treinar, caminhava umas 3 vezes durante a semana e no sábado longões de até 7h.
Me preparei para uma prova de 15 a 16 horas. Como eu estava enganado. Precisei de 27h para concluir os 30km com a minha prótese e 2 muletas.
Foi muito difícil, muita dor nas mãos por causa da descarga de peso nas muletas, um percurso muito difícil mesmo para quem tem as 2 pernas, frio, fome, GPS marcando errado, etc. Mas eu tinha uma lembrança que me motivou a não parar. Lembrava do dia da cirurgia, eu deitado na mesa de cirurgia para ser amputado e depois acordando e vendo que eu não tinha mais a perna. Isso me dava uma força incrível e eu cruzaria a linha de chegada nem que fosse me rastejando.


Terminei a prova chorando de felicidade, de dor, de medo, de não entender como consegui superar essas 27h. Foi um momento inexplicável.
Fui carregado para o barco que nos levaria para a cidade, pois minha mãos estavam inchadas e com muitas dores e estava com hipotermia. Ali no barco, várias pessoas vieram me ajudar. Uma delas foi a Luci que foi me dando comida na boca e suplementos. Lições que só o esporte nos proporciona.
Hoje tenho um objetivo de vida bem definido: tentar realizar todos os meus sonhos e vontades. Não só no esporte, mas na vida. Não quero deixar nada para depois porque pode ser que não terei esse depois.
No esporte meu objetivo maior é estar em 1 ano entre os 3 melhores jogadores de tênis de cadeira de rodas do Brasil e representar o país em todos os torneios.
E a corrida lógico, quero em breve colocar a prótese de corrida e voltar aos treinos. Correr pra mim sempre foi uma terapia e sinto falta de as vezes sair sozinho, correr por horas e pensar na vida.
Um grande abraço para todas vocês e vai aqui um pedido: Não Parem!!!
Fiquem com Deus!!!

Gustavo e Suzi, agradeço todos os dias por ter convivido um pouco com vocês. Com certeza uma grande lição de vida. Saúde e mais saúde sempre para este casal pra lá de especial.

2 respostas para “Gustavo Carneiro – Uma lição de vida”

  1. Emocionante demais!!!!!! Realmente a força mental de querer superar os limites e buscar o novo faz com que valha s pena. Parabéns Gustavo e Marias pela matéria.😘

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