Cledi, a garota das 100 milhas

Clediane Lunardi, gaúcha, natural de São Martinho, movida ao esporte desde pequena, aos nove anos de idade já participou dos jogos olímpicos na sua escola, onde venceu meninas e meninos numa competição de embaixadinhas, com 132 embaixadas Após aventurou-se para o futsal, em que acumulou medalhas e troféus. Esporte e competição sempre estiveram ao seu lado, então migrou para as corridas curtas de pista.

Após sua mudança para Farroupilha na serra gaúcha, e um período de depressão, com o apoio de uma amiga, reiniciou o ciclo das corridas que foram evoluindo para maratona e a tão sonhada ultratrail.

Após ter concluído algumas ultras curtas, Circuito Trilha e Montanhas – 50 km – Brutus do Gaúcho, Indomit Costa da Esmeralda – 50 km, sendo que algumas delas como o primeiro lugar no pódio, decidiu que queria ir mais longe, correr as 100 milhas (160km) do Indomit Costa da Esmeralda.

Essa moça sapeca, pequenina fisicamente, alegre, e com uma força peculiar, veio nos contar como passou durante o seu tempo de exposição na Ultratrail 100 Mi no Indomit Costa da Esmeralda, que com muita garra, trouxe o título para o Rio Grande do Sul. Vale a pena conferir. O texto é narrado em primeira pessoa, pois tentamos manter aqui a emoção que a Cledi tentou nos passar ao relatar a sua experiência. Aproveitem

“Antes de começar a relatar toda diversão que foi correr a Indomit, importante contar que três meses antes  da prova, me privei de muitas regalias, fiz vários testes juntamente com nutricionista e academia, em busca da melhor adaptação do organismo e músculos.

Dois meses antes da prova reservei  hotel para muitas pessoas que  iriam me acompanhar, minhas duas sobrinhas, mãe, irmã. E faltando apenas duas semanas estava quase certo que meu irmão, cunhada e dois sobrinhos também estariam lá. Uma felicidade me invadia, afinal família é refúgio e vida. Correr por eles e saber que passar a linha de chegada encontraria quem mais amo, seria a melhor das sensações.

Infelizmente por situações rotineiras não foi ninguém. Foi engraçado, pois na penúltima avaliação, brinquei com minha nutricionista dizendo-lhe que não bastava ela ser amiga e  nutri, era também minha psicóloga.  Fui tão vibrante e feliz contando que teria quase toda minha família lá e na avaliação seguinte choramos juntas, pois pra mim a prova já não era mais tão importante.

Denise Gaio lembrou que há dois ano e meio atrás, na minha primeira avaliação ela perguntou qual era meu objetivo. Respondi que queria ser Ultramaratonista. Quando participei em 2017 dos 50km na Indomit, fui na Denise e a disse que no ano seguinte queria fazer 100Mi.

Poucas pessoas acreditaram na minha capacidade, ela foi uma dessas pessoas. Vamos trabalhar, fazer testes e treinar muito para conquistar a Indomit Costa da Esmeralda – 100 Mi.

Um dia antes de ir para Santa Catarina, me certifiquei de que não esqueceria nada para prova, dispus os equipamentos, roupas, tênis e comidas na cama para conferir se estava tudo ok.

A Largada:

Na foto acima minutos antes da largada, baixei a cabeça e pensei. Bom minha família apenas não esta aqui de corpo presente, continuarei correndo por eles e por ela (a minha nutricionista) que utilizou o seu período de férias para estar lá comigo.

Tive apoio da Denise, Everton, Alexandre , Panazzolo, e amigos atletas que participaram da competição Luciene, Arcari, Cris, Brandelli, Marcio e Jasieli  pessoas fundamentais para minha conquista.

Na quinta-feira após pegar o kit e número de peito criei um grupo no whatsapp, nele estava muitas pessoas que acredito merecerem estar lá, família e amigos. Tinha muita gente e confesso que faltou muitos. Ele tinha como propósito mantê-los informados, da minha situação durante a prova e também de certa forma, sentir que todos estavam ali correndo ao meu lado.

Bom, a largada foi como todas as outras, coração já acelerado e frio na barriga. Estava pronta. Uma garoa contínua nos acompanhou durante 24horas.

No quilometro 31 já estava com corpo tomado por endorfina, corria num ritmo muito bom, forte demais para quem tinha tanto chão pela frente. Nesse quilômetro fui parada por uma cratera que se formou num córrego que ia em direção ao mar. Impossível passar, as ondas eram imensas e não dava pé.  Conforme os minutos passavam os atletas chegavam, ficamos esperando baixar o nível d’água durante 45min. Após elevar o meu nível de estresse, pensei como minha avó, “nada acontece por acaso”, ok, fizemos uma foto e seguimos.

ALIMENTAÇÃO

Montei uns saquinhos com alimento e suplementos, que usei a cada  6km, vale salientar que todos foram testados durante os treinos. Eles misturavam salgados e doces, cada um devidamente descrito.  Carreguei no percurso o necessário para cada Posto de Assitência, ou seja, no primeiro drop bag –  quilômetro 36,  pegava toda comida lá guardada, corria e usava até chegar no próximo.

Sobre água, isso não pode faltar, tinha comigo o tempo todo. A cada ponto de apoio reabastecia, além de muita água, fiz uso de Coca-Cola que me auxiliou com sódio e açúcar.

O tempo assustava um pouco, pois era como se estivesse fugindo de uma tempestade.

O período da tarde de sexta foi muito difícil, pois além de chuva tinha um vento que atormentava a mente e me fazia questionar o porquê de estar ali sofrendo.  Na foto abaixo minha expressão de cansada, percorri por estratégia 58km sem bastões para poupar esforço nos braços e deu certo.

Após concluir a primeira volta 58km, estava muito bem, concentrada e determinada a passar a noite bem.

Antes de escurecer, para adrenalina ficar ainda mais em alta, estava subindo uma trilha com um atleta e avistei uma cobra enorme, meu coração disparou e me deixo alerta durante a noite toda. Estar na natureza e encontrar répteis peçonhentos era tão inevitável, quanto minha vontade de atravessar a linha de chegada.

Além de fotos enquanto corria enviei vídeos para o grupo que criei. Isso me ajudou muito, me encorajou a seguir sempre, pois a cada contato eu mencionava que a X distância eu os contataria de novo e sabia que devia chegar no próximo ponto.

No Drop Bag, nos 36 km, deixei apenas alimentos para chegar até o quilômetro 58. Concluindo a primeira volta troquei de tênis, detalhe, o tênis que por sua vez era o certo com travas e adequado estava todo reformado, pois havia levado dias antes num sapateiro para conserto. Posso dizer que seria pior, caso não tivesse ganho um par da loja Atitude Esportes de Bento Gonçalves, nesse caso, teria corrido 160km com apenas um par de tênis.  O que preciso evidenciar é que, um atleta pode ter os melhores equipamentos para fazer qualquer prova, seja ela de nível difícil ou fácil, se não tiver psicológico forte não conseguirá concluir.

Por outro lado, sei e concordo que ter tênis bons e ferramentas para tal é muito importante.  Ocorreu um erro, pois devido ao frio e garoa intensa durante o dia todo de sexta, no drop do km 58, tinha apenas tênis reserva, bastões e comida. Roupa limpa apenas no quilometro 108. Estava encharcada nesse ponto, felizmente tenho amigos, Rodrigo Brandelli tirou seu corta vento e me deu para seguir até a próxima parada. Seguimos.

A noite foi isso, com bastões me auxiliando consegui ganhar mais tempo. No mato as plantas raspavam molhada nas pernas e o barro que fazia, dificultava bastante a corrida. Sabia que faltava pouco para chegar num ponto de apoio e ao tentar acelerar, enrosquei um dos bastões num cipó e caí, foram vários tombos, porém esse com certeza foi o pior deles,  caíx em cima da mão e acreditava ter problemas a partir dali. Neste mesmo morro, não sei precisar horário, descíamos e avistamos uma luz vinda à direção contraria. Assustei-me achando que poderia ser resgate o algo semelhante. Ao se aproximar eu parei e perguntei ‘oque foi?’ e Bruno Campeão dos 100Mi respondeu _ “nada, você apenas vão descer tudo isso, dar uma volta enorme na ilha e passarão por aqui de novo”.  Imediatamente pensei, “nossa, esse cara é foda”. Ele já estava na segunda volta, e continuei meu pensamento firme, tinha a certeza que logo passaria novamente por ali também.

 A cada registro e parada uma brincadeira com Staffs e fotógrafos.  Eu falava pra eles “amanhã quero te ver de novo hein”. Manter a alegria e diversão em tudo que se fez é importante, ganhei novos amigos nessa prova e sei que estavam torcendo para me encontrarem no dia seguinte.

Na madrugada, drop do km 108, estava com frio e a ao chegar ouvi uma voz familiar. “vamos Cledi”.  Inacreditavelmente, a nutri estava lá, ela representou tudo que precisava para seguir. Ajudou-me a  organizar as comidas, troquei de roupa, meias secas e até provou “as misturas” de glutamina, whey, BCAA e tudo que foi combinado. Sim, como disse Everton (marido da Dê), “parecem mãe e filha”, uma torcia pela outra e ali meu desejo de chegar era ainda maior, pois eu e Denise ficamos muito tempo treinando e fazendo testes para que tudo ocorresse bem na Indomit. Antes de seguir, ouvi, agora te esperamos na chegada.

A luz da manhã veio, aliviando o coração. Mais uma etapa concluída desliguei a lanterna e segui.  Foi como se a natureza falasse comigo, pois amanheceu e novamente no meio da trilha outra cobra, eu estava correndo e quando a avistei uns 100 metros de distância, resvalei e cai, coração ainda mais acelerado, aguardei ela desaparecer em meio a capoeira.  Dessa vez meu ‘pace’ aumentou.

Quando cheguei no quilometro 138,4 fui muito bem recebida,  nesse ponto de apoio tinha comida, um par de meias secas, protetor solar, óculos de sol e viseira. Ajudou muito, pois ao contrário de sexta-feira, o sábado foi quente.

 Daquele ponto até a chegada faltavam apenas 22km, arredondando Meia Maratona. Ali tomei decisão de deixar os bastões, lanternas, pilhas reservas, corta vento, tudo o que não utilizaria. Carreguei comigo somente o necessário, pouca comida, água e uma garrafinha de Coca-Cola. Ali Germano que trocava minhas meias (imagem) me informou que uma das meninas havia desistido.

Minha vista antes de iniciar a segunda subida ao Morro do Macaco

Antes de subir Morro do Macaco encontrei quatro staffs, um deles corria na minha direção, questionei sobre o que acontecia. Ele respondeu, “nada não, apenas me movimentando, pois já estou desde ontem sentado”. Rimos todos, pois contrariamente, eu estava esse tempo todo em movimento.  Cheguei ao topo e de lá enviei vídeo e foto para o grupo que criei.

Sabia que descendo Morro do Macaco, restavam apenas dois morros a serem concluídos.  Corri 145km com psicológico em alta, bem  e disposta a chegar. Como é algo inevitável e acredito todos atletas passam por isso, chega um momento da prova em que dá a queda do atleta.  O meu chegou, no inicio de uma das praias, onde meu relógio não tinha mais bateria e eu já não tinha controle de pace e horas. Passei por três pontos, onde questionava staffs de quantos quilômetros faltavam para chegar, todos, absolutamente todos me informaram distancias diferentes e erradas. Daquele ponto em diante, não existia mais brincadeiras e meu pensamento era “não vou conseguir”, uma ansiedade e angustia me tomavam e eu seguia cada vez mais forte na velocidade. Diferente da maioria, meus momentos de queda, me fazer acelerar ao invés de desistir ou parar. Comigo corria um argentino, à única coisa que ele ouvia de mim era, “EU PRECISO CHEGAR, EU PRECISO CHEGAR”, tentando me confortar e ajudar ele respondia o tempo todo, “Tranquila, tranquila, estamos llegando’”.

Como se tudo que tivesse feito até então, não significasse nada. Meu coração estava acelerado e o medo de não chegar a tempo me invadia. Nesse momento respirei, olhei para trás e vi o hermano caminhando, parei também, peguei meu celular e liguei para Denise, quase que me desculpando e chorando falei “Dê eu não vou conseguir”,  apenas uma coisa ela respondeu, “calma, respira e continua, caminha e respira”, desliguei o celular com um nó na garganta, olhei um álbum muito especial que criei anteriormente a prova, nele continham imagens da minha família, sobrinhos, mãe, pai, marido e uma frase do evento *A FORÇA PROVÉM DE UMA VONTADE INDOMÁVEL*, parece bobagem, mas pra mim funcionou, afinal treinei tanto para desistir faltando tão pouco?

Nesse momento além do desespero de querer chegar, as bolhas nos pés me faziam sofrer. Ao visualizar um ponto de apoio, comecei a caminhar, respirei fundo e falei com um casal de staffs. “Por favor, se não souberem quantos quilômetros faltam para minha chegada, liguem na organização e perguntem, pois estou com psicológico afetado e preciso da informação correta.” Ambos riam e a moça falou como se fosse música para meus ouvidos. “calma, você é a Campeã dos 100Mi, faltam apenas 7km e tens 3:00h para atravessar a linha de chegada.” Com olhos lacrimejando, sorri e falei, “Serio?” , O rapaz novamente rindo disse, “sim, você é a Campeã”, e eu “não, é serio que faltam apenas 7km?”

Estranhamente, ali não me importei com classificação, queria apenas chegar. Voltando ao real, peguei celular e gravei uma áudio para o grupo informando a tal informação recebida.

Esses 7km foram para mim os mais longos, pois parecia não chegarem, a ansiedade era tamanha que não me dava conta do quanto já havia percorrido.  Senti tantas dores nesse percurso que achava estar com os pés sangrando, duas vezes cogitei parar e tirar os tênis, mas doía tanto que não conseguiria voltar. Sim, faltava tão pouco, poderia seguir o restante caminhando, mas a única forma de aliviar as dores nos pés era correr. E assim foi a finaleira, corri querendo ouvir o que foi dito. “A CAMPEÃ, A CAMPEÃ DOS 100Mi CHEGOU!”

Adrenalina, vontade, aventura, família, amigos, apoiadores, muito, muito treino, preparo físico e desejo de chegar, foi o que me fizeram atravessar a linha. Cheguei, abracei a nutri e disse: “Obrigada, obrigada por acreditar em mim, por acreditar que eu conseguiria, Dê conseguimos!”  Ela foi a primeira a embarcar nessa loucura e a única, dias antes da inscrição a me incentivar e dizer você vai conseguir.”

Viram? Dissemos que valeria cada palavra! Que relato! Emocionante e real como as coisas da alma!

Querida Cledi, obrigada pela tua contribuição. A Maria´s da Trilha com certeza estarão ainda mais estimuladas com o teu relato.

Que essa tu energia esteja sempre contigo e que venham muitas outras ultramaratonas na tua vida.

Pequena movida a desafios e grande como os verdadeiros sonhos devem ser!

6 respostas para “Cledi, a garota das 100 milhas”

  1. Que belíssimo relato!
    Riquíssimo em detalhes e emoção…

    Parabéns pequena/grande Cledi! és inspiração para todos!

    Obs: obrigada Maria’s por nos presentear com estes lindos relatos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *