Entrevista com Simone Castro

Brasileira, já residiu na Holanda, França (Chamonix) e hoje vive na Suíça. Ela já teve oportunidade de treinar com grandes nomes do trail mundial, vejam pelos olhos dela como é o trail por lá, feito de provas pequenas até mega eventos, algumas até sem premiação, mas todas com um altíssimo nível entre os competidores.

Olá Simone, desde já agradecemos por nos dar esta entrevista.

Muito obrigada pelo convite. É uma honra poder bater um papo com as Maria’s da Trilha.

Por favor, diga-nos onde você mora e, além do atleta, o que mais Simone Castro faz no seu dia a dia

Olá meninas!
Eu moro em Zurich na Suiça. Além de trail runner, trabalho como Gerente de Marketing em uma empresa local e estudo alemão 🙂

Desde quando você começou a correr e por que você começou?

Eu comecei a correr em 2012. Eu nunca tinha feito esporte algum, na verdade tive uma vida completamente sedentária até os 25 anos. Eu morava na Holanda nessa época e inauguraram uma academia próximo a minha casa. Eu comecei a frequentar a academia, mas como nunca gostei de musculação, acabava passando horas na esteira. Nos finais de semana comecei a correr na rua e em 7 meses fiz minha primeira maratona.


Como você começou no trail running e desde quando é atleta desse maravilhoso esporte?

No trail eu iniciei em 2015. Voltei a morar no Brasil e a convite de amigos do Força Vegana, eu comecei a frequentar os treinos de montanha que eles organizavam. Assim eu fui apresentada a minha grande paixão, a corrida de montanha.

Você sempre treinou com orientação de treinador?

Fui parte de uma grupo de atletismo na Holanda, e toda a base aprendi com os treinadores do clube, o Den Haag Road Runners. No Brasil eu cheguei a treinar com o grupo de trail da Nova Equipe e com o Trail Runners Brasil, grupo do Marcelo Sinoca. Em Chamonix eu participei do Wild Trail Chamonix, um grupo local da Salomon. Treinei também com time feminino da Salomon na França por alguns meses e participei de treinos com  Emilie Forsberg, Lucy Bartolomew e  Mimmi Kotta. Foi um sonho que se tornou realidade. Lá pude melhorar e muito minhas técnicas de corrida e conhecer pessoas que se tornaram meus melhores amigos e ajudaram muito na minha evolução como trail runner. Os treinos eram super puxados e acompanhar o grupo era pra mim, um desafio diário, mas que sempre valeu a pena.

Como é ser brasileira morando na Suiça, como foi sua adaptação?


Eu moro na Suiça a pouco tempo, me mudei em fevereiro deste ano. Antes, tive a sorte de morar por quase 1 ano em Chamonix, na França.  Me mudei para a Suiça por conta do meu emprego, morar aqui é sensacional. Zurich esta cercada por montanhas e de trem você conhece chegar a lugares como a região de Zermatt e treinar com a vista do Matterhorn. Eu gosto do estilo de vida local. Todo mundo pratica algum esporte, as pessoas são simpáticas e tudo funciona perfeitamente.

Como é sua rotina de treinamento e como você concilia a pratica do esporte com sua vida cotidiana?

Eu treino todos os dias em uma floresta logo atrás de onde eu moro. Isso facilita bastante não ter que me locomover para treinar. Eu sempre treino no fim do dia, após o trabalho. Como o verão está chegando, temos luz até por volta das 9 da noite e a temperatura é agradável. Nos fins de semana eu vou com meu parceiro de treinos para a região dos alpes e lá fazemos os treinos mais longos mais focados em altimetria. Normalmente eu treino por volta de 100-120km semanais, mesmo sem sair dos arredores de Zurich eu consigo ganhar bastante altimetria. A cidade é toda cercada por trilhas, de qualquer bairro você consegue acessar a floresta.

Seguimos daqui no Brasil as notícias sobre a pandemia que afeta o mundo e a Suiça, assim como o Brasil sãos países afetados pelo vírus.
O que você não fez no cenário esportivo neste primeiro semestre por causa das medidas de combate ao Covid-19 e o que você está fazendo para permanecer ativa em tempos de isolamento?

Como a Europa foi um dos epicentros da pandemia, tudo aqui foi cancelado muito cedo. Seguimos no segundo mês onde somente supermercados e farmácias podem permanecer abertos. A Suíça ao contrário dos nossos vizinhos, Itália e França, não decretou o lockdown completo. Atividades esportivas solo outdoor são permitidas, então pude continuar treinando. No entanto, todos os eventos foram cancelados. A última prova que participei foi no fim de fevereiro, a Crux Winter ultramarathon, logo depois a quarentena foi decretada. Eu estava inscrita para a MIUT, a Gran Trail Courmayeur e a Tromsø Skyrace, todos cancelados. Inclusive para a MIUT, iriamos em um grupo de amigos para comemorar o meu aniversário, mas todos nós entendemos a atual situação e aguardamos resilientes que possamos participar dessas provas no próximo ano.

Simone, como se organizam as competições de trail running aí na região dos Alpes? Existem competições regionais ou nacionais? Ou as competições são realizadas em sua maioria por organizadores independentes?

Uma característica da região são provas pequenas, organizadas nos vilarejos. Algumas não possuem premiação ou medalhas, mas mesmo assim o nível dos atletas é super alto.
Existem também as grandes provas. Algumas das maiores provas dos circuito trail são organizadas aqui na região dos Alpes. Um site legal para ficar por dentro das provas na França, Italia, Austria e Suiça é o https://runthealps.com/races. Grande parte das provas são organizadas por grupos e associações locais, exceto as grandes que possuem patrocinadores e uma diretoria por trás, como o UTMB, Lavaredo, Eiger… só pra citar algumas. Alguns dos top atletas de trail feminino como a suiça Maude Mathys, 3x campeã do European Mountain Running, e masculino como Rémi Bonnet são dessas pequenas vilas, cria dos Alpes outros mudam-se para essa região para treinar. Não existe no entanto um campeonato nacional de trail aqui na Suiça.

Que competição foi mais marcante em sua vida esportiva? E qual o seu sonho no esporte e por quê?

A prova mais marcante que eu já fiz foi a Lhanganuco Ultra Trail, na região de Cordilheira Branca no Peru. Eu nunca corri em um lugar tão alto na minha vida. A prova chega a picos com mais de +5000m de altitude e tive que viajar uma semana antes para me adaptar a falta de oxigênio. Me perdi por quase 20km durante a prova e precisei da ajuda dos moradores das vilas locais pra me localizar, mas foi a experiência mais surreal que eu já vivi em uma prova. Meu sonho sempre será o UTMB. Já assisti a largada 2x, e a sensação de estar ali, entre aqueles milhares de apaixonados, com a cidade inteira em festa, é de arrepiar. Alias, me arrepio só de lembrar.

Querida, o que você acha necessário para termos mais mulheres vivendo o mundo das trilhas?

O trail running é um esporte que agrega jovens e pessoas mais maduras e não tem data de validade. Fico feliz ainda quando mulheres que já são mães ou até avós descobrem o trail e se apaixonam. No Brasil, a falta de suporte aos atletas em geral é um fator que afeta ainda mais as mulheres que podem chegar a um nível competitivo mais alto dentro do esporte, portanto um maior suporte de governos/prefeituras locais com programas específicos, ajudaria a levar mais mulheres ao esporte. Ser mulher trail runner requer muita independência e coragem para desbravar as trilhas e isso ainda um fator que bloqueia muitas de iniciarem no esporte. É uma questão cultural que precisa ser desmistificada.

Estamos chegando ao final da nossa entrevista, deixe uma mensagem para todas as Maria’s da Trilha que estão encantadas com a trail running no Brasil.

Eu deixei o trail running guiar meu destino e ele me levou a lugares inimaginaveis, eu não mudaria em nada as escolhas que fiz para viver essa paixão e me tornar uma atleta melhor. O que eu queria dizer pra vocês é que o trail running nos permite sonhar mais alto, tão alto como as montanhas que amamos, portanto tracem metas, façam planos e corram em direção a trilha dos seus sonhos.

@simonerunx

Simone, obrigada por nos dar a oportunidade de conversar com você e nos contar um pouco de como uma brasileira enxerga e vive o trail morando fora do nosso país!

Um beijo no seu coração enviado por todas as Maria’s da Trilha!

Obrigada querida!

Maria’s, gostaram? Viram que ela treina no final do dia, algo que se assemelha em muito ao que muitas de nós necessitam fazer em virtude dos nossos trabalhos?

Estamos muito felizes por conseguirmos abrir mais esse canal com as mulheres do mundo trail. 

Fiquem ligadas em breve mais entrevistas no nosso OLHAR LÁ DE FORA!