Entrevista com Manuela Vilaseca

Maria’s conseguimos essa entrevista com um dos maiores nomes do trail running feminino do nosso país! Manuela Vilaseca a brasileira que deixou tudo para trás aqui, escutou seu coração e foi para a Espanha.

Por favor, diga-nos onde você mora e, além de atleta, o que mais Manuela Vilaseca faz no seu dia a dia?

Eu moro numa pequena cidade na Catalunha chamada Moià. Sou graduada em Desenho Industrial (Produto), mas desde que vim morar em Moià deixei de exercer a minha profissão de designer. Quando cheguei aqui, em janeiro de 2016, não tinha emprego e logo consegui trabalho como professora de inglês. Esse segue sendo meu trabalho até hoje.

Como é ser brasileira morando na Espanha, como foi sua adaptação?

Muito difícil. Eu vim “na cara e na coragem”, com duas malas na mão. Me desfiz de tudo que tinha e vim morar com o Gerard, que eu pouco conhecia. Foi uma loucura por parte dos dois, mas tínhamos certeza de que queríamos estar juntos e acho que isso foi o que me fez superar todas as dificuldades. Eu falava castelhano, mas não dominava o idioma. Tive que aprender o castelhano e depois o catalão, que é o idioma que todo mundo fala aqui em Moià. Sofri um pouco de preconceito porque te olham como sul americano que está se aproveitando. Ninguém sabia que eu tinha dupla nacionalidade (meu pai é espanhol) e algumas pessoas pensavam que eu estava com o Gerard por interesse. Além de tudo isso, recomeçar a vida não é fácil, ainda mais quando a família está tão longe. Hoje me sinto adaptada, mas um buraco que nunca vou tapar é a saudade que tenho da minha família, todos os dias.

Desde quando você começou a correr e por que você começou?

O esporte eu comecei aos 11 anos, mas não tem nada a ver com o que eu faço hoje. Eu montava à cavalo e só queria saber disso. Aos 25 parei de montar e comecei a frequentar academia. Com isso comecei a pedalar e me arriscar em algumas provas. Lembro que fiz uma corrida de rua de 5km e senti muita dor no joelho. Fui no ortopedista e ele me falou que eu nunca mais correria na vida. Fiquei arrasada porque eu tinha acabado de começar. Não tinha nenhuma ambição grande com a corrida, e lembro dizer a ele que o meu maior objetivo era correr 10kms, mas ele disse que não. Por sorte ele estava equivocado.

Como você começou no trail running e desde quando é atleta desse maravilhoso esporte?

O Ultra Trail só entrou na minha vida em dezembro de 2011, quando fiz o La Misión na Patagônia. Eu tinha experiencia de corridas de aventura e triathlons e por isso estreei numa distância tão longa.

Você sempre treinou com orientação de treinador? Quais diferenças você vê na forma como os treinamentos são conduzidos por treinadores na Espanha e aqui no Brasil?

Sim, sempre tive treinadores e acho que é importante. Aparte do preparo físico também te ajudam a centrar e fazer as coisas com cautela. Os treinamentos no Brasil (ao menos no Rio), envolvem muito a parte de trabalho de força – como circuitos e treinamento funcional, que eu julgo ser muito importante. Aqui (ao menos aonde eu vivo) isso não é uma moda, então talvez por isso eu não vejo essa cultura. Mas acho que no final das contas vivemos num mundo globalizado onde os tipos de treinamento se propagam e são acessíveis para todo mundo.

Como é sua rotina de treinamento e como você concilia a pratica do esporte com sua vida cotidiana?

Quando me preparo para uma prova, tenho os treinos “chave” e o resto eu completo com ciclismo, yoga e corrida de recuperação. Não adianta querer treinar forte todos os dias. O ciclismo é fundamental na minha rotina porque é sempre um dos treinos longos que eu faço no fim de semana. Assim posso somar horas na minha semana, sem o impacto da corrida.

Manuela, como se organizam as competições de trail running aí na Espanha? Como são competições regionais ou nacionais? Como são as competições realizadas apenas por organizadores independentes?

Competições aqui você encontra de todo tipo, e quase cada fim de semana. Tem competições no calendário da federação, outras organizações que têm seu próprio circuito, e também provas isoladas. Em qualquer prova que você se inscreva tem um nível altíssimo de atletas, muitos desconhecidos. Creio que a Espanha é dos países mais fortes de trail run na Europa (se não é o mais forte).

Nos últimos mundiais as Equipe da Espanha sempre figura entre as primeiras colocações. Você atribuí a que isso?

Aqui o clima e a geografia são bastante favoráveis. Culturalmente também a Espanha já tem muitos anos de trail running. Você encontra provas muito exigentes, com grande número de atletas muito fortes. Na minha cidade, por exemplo, somos 6.000 habitantes e existe uma escola de trail com ao menos 150 crianças. Tudo isso contribui.

Em 2019 você competiu em sete provas chanceladas pela ITRA, e em todas foi top 5, conte para nós como foi esse magnífico ano para você?

Eu tive anos muito ruins desde que cheguei aqui. Acho que psicologicamente eu estava totalmente desestruturada e isso me afetou muito. O pior foi que eu não botei o pé no freio. Eu segui competindo, fazendo um número absurdo de ultras e me arrastando em todas elas. Eu saía para correr e tinha a sensação de que carregava um elefante nas costas. Eu não entendia o que estava acontecendo, e ignorava que havia algo errado comigo. Mas no meio de 2018 isso finalmente passou. Lembro inclusive do dia. Foi na Buff Epic, em Barruera. Aquele dia eu senti que estava de volta. Depois de muito tempo voltei a me sentir eu mesma. Pensei, “Essa é a Manuela!” Daí para frente fui remontando e com isso consegui construir uma temporada sólida em 2019. Fiz meus deveres de casa e me preparei como devia. Não competi em excesso isso me permitiu chegar nas linhas de largada com condições de competir. Me senti motivada e feliz em todas as provas que corri, e meus resultados foram o reflexo disso.

Qual foi a competição esportiva que mais te marcou? E qual seu sonho no esporte e por quê?

Pela beleza eu diria a Everest Trail Race porque meu sonho era ir ao Nepal e quando me vi tão perto dos picos mais lindos do mundo, me emocionei a ponto de chorar. Mas uma prova que me marcou como um dia que repetiria na minha vida foi a TDS do ano passado. Tive um dia redondo. Tudo deu certo e pude lutar até o final. Tenho lembranças incríveis dessa prova.

Sabemos que mundialmente o apoio para atletas é algo ainda indefinido, e variável, você já teve apoio de diversas marcas, como você vê isso e a que atribuí esse até desinteresse das marcas em apoiar o trail?

Eu nunca coloquei um patrocínio como algo necessário para que eu fizesse esporte. Sempre trabalhei e nunca pensei que podia (e também nunca quis) viver do esporte. Acho que isso é algo que te deixa leve para fazer o que você quiser. Lembro que lá atrás, quando consegui fechar um dos meus primeiros apoios com uma marca, eu acabei a reunião e disse que treinaria muito para conseguir o meu melhor, e me responderam de uma forma inesperada. “Os resultados pouco nos importa. O que queremos é que você seja uma boa representante da nossa marca.” Isso foi uma coisa que eu nunca esqueci, e algo que entendo como primordial. O que adianta você ser o melhor do mundo e ser antipático ou mau caráter? O teu resultado ninguém vai lembrar, além de você. Mas se você pisar na bola, isso sim todo mundo lembra. As marcas não querem uma associação com uma imagem negativa.

Seguimos daqui no Brasil as notícias sobre a pandemia que afeta o mundo e a Espanha, assim como o Brasil sãos países afetados pelo vírus. O que você não fez no cenário esportivo neste primeiro semestre por causa das medidas de combate ao Covid-19, o que você está fez para se permanecer ativa em tempos de isolamento e como está sendo o retorno após as liberações aí na Espanha?

O calendário que eu tinha montado para esse ano era bem legal, mas acho que foi tudo por água abaixo. Deixei de correr a MIUT (seria minha principal ultra esse ano), assim como Infinite Trails, Triathlon do Alp D´Huez e outras provas mais. Tenho uma prova por etapas no Canadá em agosto que ainda não foi cancelada, mas que eu duvido que role. Acho que o que vier esse ano é lucro. Nessas 7 semanas de confinamento eu pedalei, fiz yoga e exercícios de força. Tem pouco menos de uma semana que fomos liberados para correr e as sensações são estranhíssimas! É como se eu nunca tivesse corrido na vida. As pernas pesadas, super lenta. Mas isso também não me preocupa porque sei que isso é a consequência de ter pedalado tanto. O corpo tem memória e já já tudo volta ao normal.

Querida, o que você acha necessário para termos mais mulheres vivendo o mundo das trilhas?

Acho que o número de mulheres no esporte já cresceu muito e seguirá crescendo. A medida que as mulheres se destaquem, outras mulheres acabam sendo motivadas a correr também. Acredito que seja um processo natural, movido pelo crescimento do esporte de um modo geral.

Estamos chegando ao final da nossa entrevista, deixe uma mensagem para todas as Maria’s da Trilha que estão encantadas com a trail running no Brasil.

Que a mulherada siga firme e forte, representando, como tem feito sempre. Que nunca esqueçam de se divertir, acima de tudo, para usufruir do melhor que o esporte pode oferecer. Um beijo carinhoso.

Fotos do Arquivo Pessoal de Manuela Vilaseca

@manuvilaseca

Manu, obrigada por nos dar a oportunidade de conversar com você e nos contar um pouco de como é a rotina de uma das maiores atletas de trail do nosso país, vivendo o esporte e morando fora do nosso Brasil!

Um beijo no seu coração enviado por todas as Maria’s da Trilha!

Obrigada querida!

Maria’s, gostaram? Viram que depois de um momento de reencontro consigo e com o trail ela teve um retorno memorável am 2019 o melhor ano de sua espetacular trajetória no nosso esporte!

Estamos muito felizes por conseguirmos abrir mais esse canal com as mulheres do mundo trail. 

Fiquem ligadas em breve mais entrevistas no nosso OLHAR LÁ DE FORA!