A conversa com a “Dama de Ferro”

Ela é uma trailrunner experiente, acostumada a enfrentar provas duras, e tem muitas conquistas em seu currículo. Após a conclusão da UTMB-USCHUAIA, na qual sagrou-se Vice-campeã, entramos em contato com a Cal Nogueira, natural de Ouro Preto – MG, Oficial de Justiça, mãe de dois filhos (casal), uma Maria da Trilha conforme manda o figurino.

Hoje ela vai nos contar como vive a relação com o trailrunning assim como suas tarefas diárias como mulher, mãe e trabalhadora do Brasil. Aproveitem e embarquem de cabeça na história desta mulher chamada com carinho pelos seus amigos  mineiros e conhecida a nível de Brasil como a “Dama de Ferro”.

Como conheceu o trail run?
Na verdade desde criança, já praticava o trail run, só não sabia! Passei boa parte da minha infância, correndo e me divertindo com meus primos, em uma região muita bonita de Minas Gerais, chamada Serra do Cipó. Ali a brincadeira era desbravar; atravessando o Rio Cipó, escalando as pedras, abrindo as trilhas A aventura era certa e quem chegava por último era “a mulher do padre”…rsrsrsr

O que motivou você a praticar o trailrunnig na íntegra?
Sempre fui muito ativa e gostei de praticar esportes. Antes de iniciar na corrida treinava para competições de natação em águas abertas de 1500 a 3000 metros. A convite de uma amiga fiz um treino forte de 8km e fiquei uma semana sem conseguir andar direito, mas fui insistindo pelo prazer que senti. Comecei com a corrida de rua e pista, mas mesmo ganhando as provas de 5km até 10km, sentia que estava faltando alguma coisa. Fui convidada para alguns treinos, nos parques e trilhas de Ouro Preto, sofria muito com as subidas e reclamava (era o meu fantasma), mas a paisagem em constante transformação me encantava e no final dos treinos estava sempre feliz,
como se uma força gigantesca renascesse em mim. Com o passar do tempo e muito treinamento principalmente de subidas, fui melhorando, descobrindo que gostava mesmo era de mato, terra, pedra, água, tudo que lembrava a minha infância. Larguei a natação e comecei a me dedicar às competições de trailrruning.

Qual foi a sua primeira prova?

Nesse período de migração natação x corrida, fiz algumas provas curtas. A primeira foi no ano de 2011 – X-terra Vale do Aço  e, logo depois X-terra Tiradentes, mas a K21 que aconteceu na região de Pedra Azul – ES é a que considero como batismo, pois me deixou fascinada, abrindo um caminho sem volta. Prova dura e linda, foram meus primeiros 21km em trilhas, conquistando o 4º lugar geral.

Qual foi a sua percepção ao realizar a primeira prova trailrunnig?

Correr em serras, montanhas, estradões, trilhas, é sempre um desafio. A natureza é surpreendente e, são justamente essas surpresas que me motivam. Quando corri em Pedra Azul e me deparei com aquela rocha imensa,
até então vista só de longe, meu coração faltou pular pra fora de tanta emoção, ali parei por alguns segundos e agradeci fazendo um gesto com as mãos, momento inesquecível! Tudo era novidade e assim é até hoje. Eu não gosto de ficar estudando minuciosamente as provas que faço, por gostar
das surpresas que vou encontrando pelo caminho, procuro aprender com a jornada, que faz com que eu tenha que dar o meu melhor, pois sempre saio mais forte de cada prova, descobrindo que ainda tenho muito a evoluir e valorizando o quanto já cresci.

Você faz parte de alguma acessória esportiva? Sim Qual? Go On Outdoor

Como são seus treinos? Fiquei anos competindo sem treinador, mas chegou um tempo que parei de evoluir e senti a necessidade de procurar um profissional. Foram três anos com o Geraldo Abreu da Funcional Trainner que me lapidou, tivemos ótimos resultados nas provas. Como gosto de mudanças, fui treinar com o Guilherme De Agostini e atualmente estou com o Rafael Bonatto da Assessoria Go On Outdoor, todos excelentes profissionais. As planilhas são montadas de acordo com as provas do calendário e realizadas na parte da manhã, acordo cedinho fugindo do sol e calor, pois prefiro os dias frios; depois vou para a academia, onde faço treinamento funcional, aulas de
pilates e meditação. Sou privilegiada em morar nessa cidade rodeada de ladeiras, serras, cachoeiras… Posso escolher a 200m da minha casa, se treino no asfalto, estradões de terra batida, nos parques ou nas trilhas.

Como concilia as tarefas do dia-a-dia, os treinos e as competições?

Sou disciplinada e agitada, não paro nunca e consigo tempo pra tudo…rsrsr. Meu dia começa cedinho. Treino na parte da manhã e depois me organizo para entregar as intimações. Nas provas internacionais aproveito para gozar uns dias de férias e fazer turismo, já as que acontecem no Brasil, combino com certa antecedência com os colegas de trabalho, fazendo troca de plantão quando necessário.

O que você pensa à respeito do acompanhamento nutricional para os treinos e competições de trailrunning?

Sem dúvida, o acompanhamento nutricional é fundamental na evolução do atleta, e para mim não foi diferente. Em um período de três anos com a mesma nutricionista Dra. Ana Flávia Martins testamos vários tipos de dieta e fomos adaptando pra mim. Atualmente me sinto muito bem.  Estou mais magra e com pouca gordura corporal, sinto uma melhora absurda na recuperação depois dos treinos e provas, e ainda fazendo alguns ajustes no que comer nas competições pra não ter enjoos. Optei por uma nutricionista por não gostar muito de suplementação, sempre preferi os alimentos de verdade, doados pela natureza..

Como é a sua alimentação pré, durante e pós prova?
Não sou gulosa, gosto de pouca comida e de comer quando estou com fome, mas na semana de competição faço um esforço e fico mais disciplinada. Deixo um pouco de lado as verduras e sementes, dando preferências aos ovos, carnes vermelhas, frango e peixe. Meu carboidrato tiro de legumes variados: Batata doce, mandioca, inhame, batata baroa, etc… Macarrão ou arroz branco deixo para os dois dias que antecedem a prova. Na manhã da prova banana, aveia, canela, ovos mexidos com açafrão e o café puro sem açúcar com óleo de côco.
Durante a prova não consigo tomar mais que três saches de gel, gosto de queijos, salame, azeitona, tomatinho, amendoim, maça (tudo em pequenas porções). Atualmente tenho tido bons resultados com a Palatinose que uso 15mim antes da largada e levo outra já preparada na garrafinha com uma
pastilha de Hidroeletrolítico Gu , não esquecendo nunca a hidratação.
Pós prova vale uma cervejinha Puro Malte, carnes, massas, saladas, sopa e tudo que o estômago aceitar.

Quais provas te marcaram mais?
Sem dúvida a minha favorita ainda é Peneda-Gerês trail Adventure, que acontece na cidade de Portugal (Parque Nacional de Peneda-Gerês), onde participei por dois anos consecutivos conquistando o bi campeonato.

Outras como Lá Missión (Passa Quatro – MG);

Deserto do Atacama (Chile);

Zegama-Aizkorri Mendi Maratoia(Espanha),

MIUT – Ilha da Madeira

e o UTMB Ushuaia (Sul da Patagônia Argentina)

Todas pelo desafio em serem únicas em dificuldade técnicas, paisagens maravilhosas e organização, mas a que realmente me marcou foram os 100km da Ultra Maratona dos Perdidos,

na primeira tentativa, tive altos e baixos, só Deus e meu amigo Valmir Lana, sabem o que passei, fui renascendo das cinzas, administrando para não perder a segunda colocação geral. Aprendi muito com a dor e a capacidade de superar, voltei no ano seguinte para corrigir todos os erros, sendo a campeã e recordista da prova.

Qual será seu maior desafio em 2019?
Ainda fresquinha na mente e na alma, a primeira edição Ushuaia By UTMB (05-07 Abril, 2019), vai ficar para sempre na memória. Foi uma prova desafiadora e única, pois não sei se nas próximas edições a natureza vai presentear os corredores com a beleza da neve. Foi uma experiência incrível, onde tudo para mim era desconhecido. Passamos por terrenos alagados (charco) e lama, misturada com gelo e neve durante quase todo o percurso do FBT- 70km, levando muitos escorregões. Gostei muito da prova, achei bem marcada, Staffs prestativos e atenciosos, pontos de apoio suficientes com comida e bebida quente e uma organização preocupada com a segurança do atleta.

Posso ressaltar pontos negativos, como por exemplo o local da largada e chegada, uma melhor marcação para a noite ( uma vez que a neve cobriu algumas estacas). Poderiam ter pedido o uso de grampones nos equipamentos obrigatórios ou sugeridos, são pequenos detalhes que podem ser melhorados.

O meu objetivo era fazer uma prova progressiva e cruzar bem a linha de chegada, estava confiante no meu treinamento e com a sensação que correria bem; meu maior medo era o vento forte e a maior preocupação era acertar na vestimenta devido às baixas temperaturas em torno de 3º- 4º.

Cheguei no “Fin Del Mundo” uma semana antes da prova e fiz alguns passeios, estava frio, e a neve aparecia somente nos cumes. No outro dia, treinei em um terreno arenoso e úmido, com muitas pedras soltas, subindo o Glaciar Martial, que fica bem próximo do centro, queria sentir a respiração, se o corpo aqueceria rapidamente e a dificuldade do terreno. Creio que sem a presença da neve a prova seria mais rápida, mantendo as dificuldades técnicas, mas sem perder a beleza.
Na quarta-feira choveu na madrugada e o tempo mudou, trazendo frio e neve. Fui acompanhando as mudanças do clima, que foi só piorando e foi me dando muito medo ao mesmo tempo em que me sentia feliz em correr na neve.

E agora o que deveria vestir, como me hidratar, como me alimentar para não perder a energia?! Ao mesmo tempo em que tentava tomar decisões, o medo se misturava, com alegria, dor de barriga, forte emoção… o sonho estava começando a se realizar!
Não consegui dormir bem na noite anterior a prova, estava ansiosa e agitada. Normalmente esses sintomas, desaparecem na largada, que sempre é forte, como uma explosão de adrenalina acumulada…rsrsr

Mas dessa vez sai mais lenta, cautelosa, esperando uma resposta do corpo. Em momento algum me preocupei com o ritmo; deixei ser guiada pela sensação de esforço, sentindo a respiração e as passadas firmes. Passamos por florestas de árvores baixas e gigantes, tudo branquinho… As trilhas eram boas para correr (lembrei-me da floresta da Tijuca, pelas raízes fincadas na terra), campos abertos e alta montanha, onde a água descia formando riachos, me deparando com um lago encantador na primeira subida do “Cerro Del Medio”, acredito que foi o Laguna Margot, que me deixou simplesmente paralisada. Pensei em como temos paraísos nesse mundo.
Aos poucos tudo foi se encaixando, o corpo estava aquecido e mais ou menos entre os quilômetros 18-20 teve a divisão dos atletas de 50km e os de 70km que largaram juntos.
Começando a primeira subida, sem sair do meu ritmo de prova, passei duas atletas buscando a segunda posição e conseguindo mantê-la até o final.
Vento, nevasca, chuva e muita neve, mas em momento algum sofri com o frio, com certeza acertei na roupa.

Alimentei muito pouco: 3 saches de gel, 2 pedaços de chocolate amargo; uma porção de amendoim salgado que havia levado, no mais foi o que a organização ofereceu, optando por maça, banana, queijo, salame, marmelada, café e Coca-Cola, muita água e repositor.

Em todo o percurso, me senti muito confortável com o clima; mente forte e feliz, o corpo respondia bem e as surpresas inimagináveis serviam de motivação. Fiquei emocionada por vários momentos e agradecia a oportunidade de estar vivenciado tudo aquilo, pensava que estava onde deveria estar que era o meu momento e não permitia a entrada de nenhum pensamento negativo, ia levando comigo os amigos, os filhos, meus antepassados, lembranças e canções que me fazem rir. Em todos os PCs que
chegava, imaginava a torcida de quem me acompanhava no aplicativo Live Info, e me permitia receber essa energia boa, que me empurrava montanha acima.

Foi uma prova muito técnica e travada; subindo os pés afundavam na neve e descendo levava muitos tombos. Na última montanha já com 64km nas pernas, não tive escolha a não ser descer de skibunda, foi arriscado, mas muito divertido…rsrsrs.

Ao entrar na última floresta, um prazeroso single Track, sabia que faltava pouco, não sei explicar o que aconteceu, mas estava sobrando energia.
Corri com todas as forças e logo estava no asfalto, corria ainda mais, queria chegar e celebrar!
Considero que foi o meu maior desafio, mas também a minha melhor prova. Redondinha, quase perfeita!

Completei em 10h25min7s, conquistando o segundo lugar geral feminino; primeiro na categoria e 24º geral.

Como você vê o momento do trailrunnig no Brasil?
Ainda evoluindo, uma coisa que me incomodada é a figura do Staff, no meu ponto de vista o Staff , que é a pessoa querida e mais importante da competição, ele tem o papel de ser um apoiador do atleta, auxiliando nos PCs e não servir de marcação.
Marcação deve ser feita com placas, fitas, estacas, etc e o atleta sim, responsável por segui-las.
Sinto também a falta do envolvimento da comunidade, colaborando com o organizador e participando na torcida, motivando o atleta. Tenho o sonho de ver mais crianças e mulheres nas trilhas.

Foi pensando em incentivar a prática feminina do trailrunnig na região de Ouro Preto e distritos, que criei o grupo “Trilhas das Minas”, já vamos para o quarto treino juntas. Os encontros são em locais diferentes, no intuito de divulgar as belezas da região. Atualmente temos 87 mulheres cadastradas, mas o trabalho está só começando.

Qual prova você indicaria para uma Maria?
Peneda-Gerês Adventure, organização impecável, realizada em etapas de 4 e 7 dias. Cada dia um novo percurso e novas paisagens. A inscrição inclui transfer, hospedagem e alimentação, ou seja, o atleta fica por conta de correr e se divertir. Ainda oferece passeios para acompanhantes.

Qual seu maior sonho dentro do trail?

Sinto que já realizei. Comecei a correr com 42 anos, sempre disputando na geral com meninas bem mais novas, isso é muito bom, mas a minha maior
conquista é o carinho e respeito das pessoas que me acompanham. Servir de inspiração é gratificante.

Na sua percepção, ser trail runner é …
Ser livre. Me sinto o quinto elemento da natureza: Terra, água, ar, fogo e a Cal!

Por que você indica o trailrunnig como prática esportiva?
Não gosto de rotina e ainda não descobri onde encontrar tanta novidade a cada km. Correr atravessando rios, segurando cordas, subindo e descendo as montanhas, passando por florestas, campos abertos… é diversão garantida, aventura constante.

As Maria´s da Trilha agradecem a tua disponibilidade para nos mostram a tua valentia e coragem. Que possamos nos encontrar ainda várias vezes para compartilharmos este esporte lindo. Parabéns por esta trajetória linda!

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