Ultra Machu Picchu Trail UMPT – Relato de Taís Damasio

Ela escolheu a data do seu aniversário para se tornar ultramaratonista de montanha. Resolveu ir correr a Ultra Machu Picchu que ocorreu no úlitmo dia 13/04/2019. Foi a única mulher a completar a distância e se consagrou campeã!

Fomos atrás da taís para que compartilhasse conosco o seu sentimento, divirtam-se, o relato está lindo.

A expectativa era grande. Correr acima de 4500m de altitude, por si só, já seria um desafio gigante. Eu não sabia como meu corpo reagiria a diversas horas em atividade em um ar tão rarefeito. A expectativa virou medo, quando dois dias antes, ao subir a Montanha das Sete Cores (5.036m de altitude) com o objetivo de aclimatar, eu tive o tal do “mal da montanha”: dores horríveis de cabeça, pressão muito forte na nuca e vômitos intermináveis. Um pavor! Se isso acontecesse na prova, eu estaria fora! Era impossível ficar em pé.

     Chegou o dia. Às 4hs da madrugada parti de Mollepata em direção a Comunidad Kamas, local da largada. As 6hs começou a prova, com 3.250m de altitude, frio e  muito vento. Alguns brasileiros amigos largaram comigo, mas logo nos separamos e dali em diante foi uma prova solitária, raros alguns momentos. Já no Km 6 tive que atravessar um rio pela altura da canela. Resolvi parar e tirar o tênis. Achei muito arriscado molhar o pé, num clima tão frio e assim permanecer por muitas horas, tendo tantos kms pela frente. Escolha certa!

     Do 6km em diante foi só subidas. Logo no km 8 comecei a subir a primeira montanha, chamada Kamas, que em 9km de subida fez eu chegar a 4.718m de altitude, 1.790m de altimetria e uma paisagem de encher os olhos e o coração. Alcancei o topo no km 17, com quase 4 horas de prova. Ali era para ter um ponto de hidratação e alimentos. Entretanto, não havia nada e eu quase não tinha mais água e suplementos. O que não tem solução, solucionado está. Condicionei meu corpo e mente para chegar até o km 30, onde haveria o próximo PC. Segui firme e o melhor, feliz.

    Logo encontrei um atleta das 100 milhas chorando agarrado numa pedra. Perguntei se estava tudo bem, se precisava de algo. Ele me disse que tinha fobia de altura, que embora fosse ultratrail nunca havia corrido em meio a tantos penhascos. Sentei do lado dele e disse que ele não tinha opção, que teria de enfrentar aquilo porque ninguém iria tirá-lo dali antes dele morrer congelado. Eu falava e ele chorava mais. Peguei na mão dele e disse que ele iria descer comigo. E lá fomos, pé por pé. Ele seguiu chorando e eu não parei de falar nenhum segundo, sempre tentando mostrar o quanto tudo estava sendo transformador. Que a fobia ficaria na montanha e que ele sairia daí muito mais forte. A descida era absurdamente técnica. Custamos para ficar em pé. Chegamos a levar 50 min para descer apenas 2km. Terminamos bem, ele mais forte e eu muito feliz em ter sido útil. Segui.

    No Km 23 encontrei uns nativos assando batata no chão. Uma criança veio me oferecer uma. Que espetáculo! Nunca esquecerei o sabor. Comi com casca e nem me importei com o fato de estarem com um pouco de barro. Aliás, comi 4!

    Mais adiante resolvi para numa água corrente em meio as pedras para encher todas garrafinhas de hidratação e suplemento. Que tranquilidade! Estava bem abastecida.

    Nesse ponto encontrei um italiano passando muito mal pela altitude. Parei mais uma vez. Tentei ajuda-lo com tudo o que tinha: folha de coca, oxigênio (levei um pequeno cilindro comigo para essas emergências) e água florida (que eles usam muito para dor de cabeça da altitude).

    Segui bem. As paisagens eram lindas demais, de tirar o fôlego. Mas o terreno era duro demais. Pedras e pedras. Umas gigantes que precisavam ser escaladas, outras menores que ao menor descuido nos levavam ao chão.

    Cheguei no Km 30 com 7h30min de prova. Entrei no PC e só consegui comer queijos e amendoim. Havia sopa, mas achei o cheio muito forte e resolvi não arriscar. Nesse momento soube que eu era a 1ª colocada. Nem acreditei! Logo chegou um rapaz das 100 milhas e me disse que a 2ª colocada estava logo ai. Resolvi não me demorar (kkkk) e logo comecei a subir a 2ª montanha. Meu Deus! Foram intermináveis 13km subindo. Nessa parte da prova encontrei muita gente. Eram turistas que falavam todas as línguas imagináveis. Todos falavam comigo, aplaudiam e davam aquela força. Eu não atendi nem a metade do que me disseram, mas respondi tudo. Era tão bom ver gente! Também encontrei muitos cavalos descendo as montanhas carregando alimentos para os nativos. Que vontade de montar em um e fazê-lo subir (kkkk). Quem não teria, né!

Cheguei ao topo no km 43, com 4.618m de altitude e 12h44min de prova. A partir dai que a coisa ficou tensa. Escureceu e eu, novata no ultra trail descobri, só nesse momento, que minha lanterna era de alcance médio. Eu estava sozinha, numa escuridão, com uma montanha gigante e imponente do meu lado, e minha super lanterna me permitia ver uns 10 passos a minha frente. Ou seja, além de haver poucas marcações eu não conseguia enxergar as poucas que tinham.

Resolvi me guiar pelo rio e pelos cocôs de cavalos e vacas. Afinal, se os animais por ali passavam é porque haveria caminho e eu chegaria em algum lugar. Todo cuidado era pouco. A região é repleta de penhasco e qualquer descuido poderia ser fatal.  Assobiava muito na esperança de encontrar alguém perto. Mas nada! Nem lanternas eu via. Rezei tanto, mas tanto, para estar no caminho certo. Cruzei o rio inúmeras vezes. Me vi perdida várias outras. Mas desespero não iria resolver nada. Uma hora alguém apareceria.

Por vezes, via vultos e me enchia de alegria, mas logo percebia que era um cavalo ou uma vaca. Foram 6 horas assim, até chegar a base da montanha. Que felicidade! Ainda mais que tinha uma PC.  Recebi uma benção de um inca que me revigorou. Que povo mais místico e cheio de energia! Comi pão puro e café preto. Nesse momento soube que 5 mulheres já haviam desistido. Guardei uns pães no bolso da bermuda mesmo e segui.

A montanha tinha acabado, mas os penhascos não. Tremia muito as pernas de cansaço. Por vezes elas não me obedeciam. Cai muito. Quando batia o medo, eu o espantava pensando no quanto tinha sido duro chegar até ali e no quanto eu tinha sido forte. Alinhava a mente e me reequilibrava.

Cheguei no km 51, onde havia o ultimo PC com alimentos. O organizador da prova estava lá e me disse que faltavam 15km (10km seguindo o rio, dentro do Caminho Inca e mais 5km até chegar ao povoado de Mollepata). Fiz as contas na hora e fiquei tão aliviada porque a prova terminaria no km 66. Mas não foi bem assim. Terminei os 10km do Caminho Inca e nada de sinal de luz. Segui por mais 8km de sobe e desce, com terrenos sempre muito técnicos. Comecei a ver luzes, mas muito distantes. Entrei finalmente num estradão que, em 9km intermináveis, me levou a Mollepata, local da chegada. Como era 1h07min da madrugada, havia pouquíssimas pessoas. Tive uma prova e uma chegada totalmente solitária, mas nunca havia me sentindo tão cheia de vida!

Antes de mim, apenas 3 homens cruzaram a linha de chegada. Fui a única mulher a terminar a prova, sendo que a última desistiu no km 60.

UMPT tem sido considerada a prova mais desafiadora e perigosa do mundo. Não é a toa. Há muitos penhascos por todos os cantos, o terreno é altamente técnico e há muito poucos pontos de controle. Além, de não haver sinal de telefone ou internet, o que dificulta muito a comunicação.

Por tudo isso digo, que a UMPT é linda e difícil na mesma medida e aí está a conclusão disso tudo.

2 respostas para “Ultra Machu Picchu Trail UMPT – Relato de Taís Damasio”

  1. Sinto muito orgulho da Taís Damásio Rotta por representar com tanto brio o nosso país. Parabéns! Ela é uma mulher extraordinária.

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