Relato UD Etapa Passa Quatro – MG


Desde que comecei a realizar provas de endurance, surgiu um desejo de contá-las para as pessoas, no sentido de fomentar e divulgar esta modalidade de esporte.  Agora que o Maria´s da Trilha nasceu, a cada prova significativa que possa servir de referência para outras pessoas, estarei aqui contanto a minha experiência, pois além de aproximar o público feminino do trailrun, a informação também é importante. Resolvi fazer um relato da prova que participei, junto com o Émerson, em Passa Quatro-MG no último final de semana de fevereiro, uma das etapas do Ultra Desafio (UD), promovida pelo Ultrarrunners Eventos. Completei os 80 km, mas a prova também oferece 15, 30 e 120 km, sendo as duas maiores na modalidade survivor e com apoio (carro acompanhando) e duplas.

Vou dividir o relato em partes, que serão denominadas planejamento, prova e pós prova.

PLANEJAMENTO

O planejamento é muito importante para qualquer prova, para que não precisemos nos preocupar com estes detalhes enquanto estivermos envolvidos na competição, chegar seguro e estar com a cabeça focada no movimento e no percurso.

Gestão Financeira

O UD é realizado em Passa Quatro – sul de Minas Gerais – nas Terras Altas da Mantiqueira, aproximadamente 250 km do Aeroporto Internacional de Guarulhos, seguindo pela Via Dutra, depois é entrar próximo da cidade de Cruzeiro e subir a serra para chegar naquele mágico lugar.

Neste caso, nós aqui de Porto Alegre, orçamos passagens aéreas até o aeroporto de Guarulhos. Ida e volta: R$ 380,00 (por pessoa) tempo estimado 1h20min.

Para chegarmos em Passa Quatro, necessitamos a locação de um carro, afim de diminuir o tempo de viagem, pois o trabalho nos impede de tirar umas mini férias, foi bate e volta. Locamos o carro via internet, pela locadora UNIDAS, com seu ponto de retirada e recebimento do carro quase dentro do próprio aeroporto. Foi super fácil, chegamos, pegamos a mala, fomos somente com uma, pois um viajou sem franquia de bagagem, o que diminuiu os custos.  Para assinar o contrato de locação e apanhar o veículo nos informamos no posto da Unidas no aeroporto e apanhamos uma van que nos conduziu até o pátio da locadora nas proximidades do desembarque, tudo super rápido.  Custo R$ 340,00 (duas diárias, um Fiat Mobi 1.0, 4 portas, com ar ar, vidros elétricos com o combustível incluso, para duas pessoas com uma mala de 23kg – perfeito, o tanque cheio foi sugiciente para ida e volta e inclusive uma esticada até Campos do Jordão) – Tempo estimado do desembarque até sair com o carro – 30 min.

Seguimos em direção a Passa Quatro no sentido Rio de Janeiro da Via Dutra – O waze ou o google maps auxiliam bastante na saída para a Via Dutra. Aqui vale fazer uma observação – o gps vai tentar desviar o percurso para as vias colaterais, em função do preço dos pedágios, mas vale a pena continuar pela Dutra, é mais rápido e mais seguro. Valor dos pedágios – R$ 60,00 ida e volta.

Entre o km 80 e 90 da Dutra opções de almoço no posto Arco Iris  e Spani Atacadão (comprar suprimentos para a  – para compra de suprimentos para a provas. O SPANI ATACADO (prédio azul) fica localizado à direita, logo após passar pela cidade de Aparecida. Lá se ecntra todos os mantimentos para a prova e alimentação em geral por preço mais acessível, recomendo.

Andamos pela Via Dutra por aproximadamente 215 km, chegamos em Cachoeira Paulista e entramos a esquerda em direção a Cruzeiro, pela SP-058. O GPS nos conduziu até Passa Quatro. Tempo estimado 4h30min (devido as paradas para almoçar e comprar suprimentos)

Necessitamos também de orçamento de hospedagem, dos custos da viagem este aspecto não é o mais caro, em Passa Quatro o custo de vida é muito baixo, e os valores de hotéis e pousadas são bem acessíveis também. No nosso caso, ficamos hospedados na Pousada Recanto dos Pinheiros, localizada a 7 km do Centro e da largada. Tenho um plano de viagem que contempla esta pousada, mas o conselho é a hospedagem perto da largada para se fazer tudo a pé.

A Pousada Recanto dos Pinheiros tem instalações ótimas, é tranquila e tem um café da manhã bem reforçado. Existem várias pousadas mais próximas, entre elas estão a São Rafael e Eco da Montanha, entre outras, que valem a pena pela proximidade da largada.

Alimentação

O planejamento alimentar iniciou antes da prova, como já sou experiente em provas de 80 km, sabia como o organismo se comportaria em 12h de exposição, que foi o tempo estimado para concluir 80 km. Tenho diminuído a alimentação nas provas e utilizando  suplementos mais fáceis de carregar, são mais leves e tem a eficácia que preciso para chegar ao final. Planejei levar gel de carboidrato, algo salgado, do tipo “Pingo d’Ouro, salaminho, BCAA, cápsulas de sal, mariolas, água e gatorade. Já tinha realizado treinos com essa suplementação e me adaptei bem, vale ressaltar que não tenho indisposições gastrointestinais que possam ser um fator dificultador da performance. Consigo comer de tudo sem nenhuma restrição. Aproveitei muito os alimentos distribuídos na prova, laranjas e bananas me caem super bem, tenho a sensação de refrescância.

Equipamentos para a prova

Já tenho uma lista padrão para ultras, diminuo ou aumento a quantidade, dependendo da distância e previsão climática. Para a UD escolhi a mochila Dyna 1.5, da Osprey, reservatório de 1,5l, uma garrafinha  flexivel de 500ml. O material obrigatório ficou bem acomodado, 2 headlamp, colete refletivo, pilhas reservas, apito e ainda pus por conta um corta-vento. Nesta prova vivi uma novidade, corri monitorada com o meu SPOT, meus familiares e amigos me acompanharam a distancia e em tempo real. Por momentos, falamos com eles e sentíamos eles muito mais tranquilos. Meus pais e filhos vivem comigo cada instante das minhas provas e se emocionam com a chegada, foi muito legal compartilhar com eles o tempo em que estive em movimento, inclusive até encaminhei algumas mensagens para eles do próprio equipamento. Muito bom.

A PROVA

Esta prova contempla aproximadamente  80% estradões de terra, o restante são calçamentos, paralelepípedos e asfalto , com aclives (2280D+) e  declives (2290D-) bem  íngremes, dividi ela em 03 partes, que são as ascensões aos três cumes, sendo o primeiro com a maior altimetria alcançada. Largamos e rodamos 6km praticamente planos, alguns aclives acompanhados de declives, mas nada demais. Após isso iniciamos a ascensão mais difícil.  Assim fomos até km 14.

Larguei ansiosa, com a respiração difícil de encaixar, o tempo estava úmido e quente, o que possibilitava maior sudorese e perda de sais minerais por consequência. Tentava forçar e não encaixava; por fim acabava mais ansiosa ainda. Larguei bem na frente, então vi várias outras corredoras passando por mim como se nada estivesse acontecendo, e proporcionalmente, ficava mais ansiosa.

Após uma descida bem ingrime, aproximadamente no km 15,5 estava o primeiro PC, apenas passei, pois não tinha deixado drop bag nele. A partir daí as coisas começaram a encaixar, entrei na prova e tudo fluiu, descia muito bem, no plano uma cadência relaxada e constante, comecei a reencontrar as minhas adversárias; e quando cheguei no km 20 disse para o Emerson (como a prova dentro do planejamento anual dele seria um treino, me acompanhou todo o percurso), agora eu encaixei.

Seguimos até o km 29,8, segundo PC, em um ritmo contínuo favorável e confortável; parei e peguei um gatorade e um pacote de salaminho que deixei, peguei banana e laranja e saí comendo, sempre em movimento, continuamos subindo e descendo até o km 36, fomos num ritmado constante, os pulmões pareciam, finalmente, terem se expandido e, nessa altura, eu já me encontrava na segunda posição.

O clima estava bastante quente, o sol algumas vezes aparecia para fritar os nossos miolos e nós pedíamos uma chuvinha.  A partir do km 37 quando partimos para  o segundo cume, a chuva apareceu, na hora certa, tudo ficou melhor, conseguimos alternar caminhadas e trotes, encontramos alguns atletas que estavam na prova de 120 km, fomos enfrentando a subida com tranquilidade até o km 47, quando encontramos o terceiro PC.

Após este PC seguimos numa descida com inclinação tranquila e  boa de desenvolver a corrida, não era íngreme, porém constante, permitiu que eu soltasse o corpo e o deixasse correr sem fazer força. Entrei numa zona de conforto que permitiu manter o ritmo no plano, e assim fomos até o km 60, quando avançamos para o terceiro e último cume. Pelo que tinha estudado na prova a altimetria do terceiro cume era de aprozimadamente íngreme, tinha D+ de 350m, mas quando olhei para as “montanhas” levei um susto e disse para o Emerson, “acho que nós não vamos por ali, ali tem mais de +350m.  Mas ele disse: “É ali, passei aqui ano passado na UAI (Ultramaratona dos Anjos Internacional, prova que ele correu em 2017). E o nosso destino era por ali mesmo. Subimos muito, e num zigue-zague sem fim, que enxergávamos longe o caminho que deixamos e o que ainda iríamos passar. Nesta fase da prova o Emerson me disse que tinha a certeza que conseguiríamos o nosso objetivo, baixar o tempo nos 80 km. Fomos subindo até o km 75, alternando trote e caminhada.

Os últimos 5km, sabiamos  que eram descendo e foram realizados sorrindo, gritando, festejando e conversando, muito satisfeitos com a minha performance, pois vale ressaltar que quem deu o ritmo fui eu, quem fez a prova foi eu, o Emerson foi ao meu lado porque o propósito do treino dele era rodagem confortável. Ele apenas me passou segurança e me mostrava que eu tinha capacidade, força  e resistência para ir mais rápido que eu imaginava. Enfim, completei a prova em 10:28 min, baixei meu melhor tempo em mais de 2hs na distância que mais gosto e, ainda, de quebra me restou o segundo lugar geral survivor (somente com a mochila, sem apoio de equipe nem veículo) e a terceira colocação no geral nos 80 km, sendo que a primeira colocada que realizou a prova com apoio (sem mochila, com equipe e carro de apoio) chegou em pouco mais de 8h estabelecendo o novo record da prova.

PÓS PROVA

Chegamos, felizes, faceiros, o meu parceiro vibrando comigo, por ter conseguido baixar o meu tempo, por ter realizado um prova dura e por ter ficado um pouco pertinho das montanhas. Ao passarmos pelo pórtico, conseguimos visualizar a nossa colocação e recebemos a notícia de que, pelo regulamento, era necessário o fechamento do pódio geral e das categorias para ocorrer a premiação, mas se caso não ocorresse até as 22:00h, eles iriam premiar mesmo assim. Fomos nos recompor no carro, jantamos uma massa ao sugo, como estava muito cansada, não consegui comer muito, somente o suficiente para repor o carbohidrato e evitar perdas de mais fibras musculares, afinal de contas o metabolismo estava a milhão. Como chegamos cedo, ainda encontramos um restaurante aberto, e fomos servidos com comida fresquinha e de muita qualidade. As 22:00h subi no pódio.

Após toda a festa de premiação fomos para a pousada descansar. Ao amanhecer, como somos acostumados a acordar super cedo, estávamos em pé, prontos para o desjejum, a fome estava grande. Tomamos aquele café caipira e seguimos nosso destino a Campos do Jordão, para o almoço. As provas nos proporcionam conhecer lugares diferentes, quem decide ir para Passa Quatro correr, Campos do Jordão é um belo local para um esticadinha, mesmo que o corpo esteja um pouco dolorido. Almoçamos na Baden Baden, e seguimos a Guarulhos, para entregar o carro e seguir viagem para casa.

CONCLUSÃO

Enfim, missão cumprida, muito satisfeita com o tempo nos 80 km. Uma prova com balizamento muito bom, eu, como sugestão, escrevi que nas bifurcações das distâncias deveriam ter  placas indicativas contendo a direção a ser seguida e a quilometragem daquele ponto. A equipe organizadora é muito experiente, o que dá credibilidade ao evento e segurança aos atletas. O terreno é possível de movimentação continua, em ritmo de corrida, o que proporciona ao atleta uma percurso ritmado, com isso o tempo de exposição diminui sem falar que a pontuação de performance estabelecida pela ITRA fica favorecida, pois é baseada no tempo de conclusão individual de cada atleta, não sendo atrelada a sua classificação geral, quanto mais rápido mais pontos independente se o atleta é o quinto ou o vigésimo quinto. O clima estava favorável, mas sei que naquela região é muito quente nesta época do ano. A atenção a hidratação deve ser redobrada. A paisagem é inesquecível, aos meus olhos, o Brasil tem montanhas sim, mesmo que oficialmente não.  Quanto a sensação de plenitude, acho que esta imagem representa muito bem a nossa satisfação. Elo foi tirada no km 60 da prova, ainda faltavam 20….ah, e que belos 20 km. Já estou com saudade, ano que vem estarei presente em alguma etapa do Ultra Desafio, com certeza.

As Maria’s da Trilha recomendam, toda e qualquer prova organizada pela Ultrarunners Eventos!

VAMOS MARIA’S! VAMOS INVADIR AS TRILHAS!

MARIA’S DA TRILHA, BELAS E FERAS NA NATUREZA!

2 respostas para “Relato UD Etapa Passa Quatro – MG”

  1. Que belo relato Luci. Que orgulho ter uma amiga assim, com essa força e disposição pra enfrentar o desconhecido e, ao final, sair sorrindo com todo esse gás.

    1. Obrigada minha querida!! O bom da vida é compartilhar estes momentos bons. Tenho orgulho de ti também, pela trajetória de mãe, mulher e atleta.

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