E a Ligia vai para o Trail World  Championship 2019


Ela é uma das referências no trailrunning feminino brasileiro. Se destaca pela sua força e entusiasmo em manter a competitividade no esporte. Conversar com ela deu uma injeção de ânimo. É forte, persistente, corajosa, ousada e disciplinada. Seus desafios são, na maioria das vezes concluídos com sucesso. Hoje ela vai nos falar sobre estar entre uma das melhores do país, o que significa representar as mulheres brasileiras no Trail World  Championship 2019, que acontecerá em Portugal, e, como mantém a competitividade como seu maior combustível.

A Ligia Almeida é de São Bernardo do Campo / SP. Casada com o Ricardo (Thor), ainda não tem filhos, atua como  Terapeuta Ayurvédica , está na segunda gradução em Ed. Fisica , pois quer trabalhar este foco quando concluir o curso. Deixamos tudo com as palavras dela, para nos aproximar mais do dia a dia desta super atleta. Bora aproveitar?

Como conheceu o trailrunning e o que te motivou a praticar o esporte?
Através da Empresa no qual trabalhava, existia uma consultoria em qualidade de vida que oferecia treinamento de corrida em parceria com José Virginio de Morais dono da Assessoria JVM Trail Run, ele é meu técnico e estou na nesta assessoria esportiva desde então isso foi em 2009.

O meu técnico Virgínio, me ofereceu uma inscrição para o percurso de 6 km no Corrida de Montanhas em Parapiacaba região de São Paulo. Eu amei tanto tudo aquilo, me sentia tão eufórica que ao invés de seguir no meu percurso dos 6 km, conforme orientação do Staff, segui para os 12 km o percurso mais longo da prova. Claro fui desclassificada, se tivesse corrido o percurso devido chegaria entre as três primeiras, no 12 km também… rs a partir dai o céu foi o limite comecei a escrever minha história no Trailunning e sou uma Ultramaratonista Endurance.

Qual foi a sua primeira prova e qual sua percepção?
Oficialmente na montanha tirando essa que fui desclassificada foi em Campos do Jordão, Mountain Do 18k, fui 3.ª colocada entre as mulheres.

Veja, foi a de mais pura euforia, estava tão contente por estar naquele contexto, que queria mais e mais e desde então não me vejo não fazendo algo que me traz tanta felicidade, paixão, paz e conexão comigo mesma.

Como são seus treinos?
Nessa fase que sigo para o Mundial de Ultra Trail, estamos na fase de treinos de força específicos para resistência, intervalados e ritmo. Tenho um dia de Day Off (sexta-feira), Sábado meu treino é em horas quando vou para montanha e quando é algo mais rolado (Cross Country) em Kilometragem, tudo não passa de 3h, e o ritmo é como se fosse competição ou na percepção de esforço (eu gosto), e no Domingo uma bike “Lúdica” como assim específica meu técnico, ele quer dizer soltar as pernas não forçar, rs

Como concilia as tarefas do dia-a-dia, os treinos e as competições?
Já foi mais intenso quando trabalha no mundo corporativo, hoje como trabalho por conta consigo administrar melhor meus horários com família, trabalho, estudo, afazeres de casa, treinos e competições. O que ajuda mais é o apoio e parceria do meu “namorido” ele também corre isso facilita a rotina de acordar cedo e irmos juntos principalmente nos finais de semana. Amamos esportes em geral então entra como entretenimento nosso também, e viagem de férias já nos programamos para fazer uma prova no local que iremos conhecer e depois montamos roteiros para explorar os locais, comidinhas típicas e tudo que gostamos de fazer. Ano passado fomos para Europa competimos em 2 provas na Áustria, inclusive uma delas entrou como prova da minha escolha para contar para a Seletiva do Mundial, antes da prova fizemos um trekking no Parque Nacional do Triglav na Eslovênia e conquistamos o cume do Triglav o pico mais alto da região foi incrível!

O que você pensa à respeito do acompanhamento nutricional para os treinos e competições de trailrunnig?
Fundamental, comer bem é treino tão importante quanto o treino físico e mental, na minha opinião esses são 3 pilares para se encontrar o equilíbrio perfeito e conquistar o Everest se quiser, rs

Como é a sua alimentação pré, durante e pós prova?
No geral não tenho problemas com alimentação, na semana da prova, concentro uma alimentação reforçada nos carboidratos mais complexos e muito líquido (Água, Água de Coco).

No dia antes da largada Isotônico, pão branco com geleia (irei usar essa fonte de açúcar rápida nos primeiros kms da prova) e café preto sem açúcar por gosto e preferência.

Durante a prova, a suplementação que recomenda minha nutri normalmente (eletrólitos, bcaa e recovery) alinhamos isso de acordo com a distância/tempo de prova, mas quando longas distâncias reforço com géis a base de sal e cafeína, tâmaras, damasco, provolone, batata com azeitona, paçoquinha, balas de gengibre e uso o que a prova oferece (leio antes para saber o que terá já que muitas provas precisamos ser mais auto-suficientes) isso entra também como estratégia de prova para não sair muito carregada, como eu me conheço e faço testes de alimentação nos treinos longos então consigo me orientar bem com essa estratégia.

Quais provas te marcaram mais?

Tem algumas, mas irei citar 3 específicas.

Trail World Championship em 2016 também em Portugal, além de ser o 1.º Campeonato, pra mim foi como estar nas Olimpíadas do Trail Run, memorável toda abertura e cenário competitivo que vivenciei. Feliz em voltar esse ano e levar nossa bandeira novamente junto com todos da delegação brasileira.

Ultra Fiord 2017 – 112k Essa corrida me marcou, porque, depois dela revi minha maneira de correr e objetivos com a corrida…, ela me deu um verdadeiro sacode, rs

Indomit São Bento do Sapucaí 2019, embora já tivesse conquistado minha vaga no inicio do ano, eu me coloquei nesse cenário competitivo e forte para continuar firme nos treinos para chegar mais preparada e dar meu 110% nesse mundial.

Qual será seu maior desafio em 2019?
Além do Mundial em Portugal em Junho meu outro maior desafio é o UTMB – Ultra Trail du Mont Blanc) no final de Agosto desse ano percurso das 100milhas (170km cruzando a tríplice fronteira da França, Suíça e Itália) desde 2015 venho me qualificando e me preparando para ela. É meu sonho antigo e esse ano, além dos pontos válidos minha loteria saiu. Não foi fácil conquistar essa primeira parte, como diz o meu amigo Cícero Barreto “suei grosso” até aqui, e continuo suando, rs

Como você vê o momento do trailrun no Brasil?
Vejo mais positivo, estamos 1 km por vez, desde o 1.º Mundial muitos corredores bons começaram a se revelar isso foi ótimo, minha opinião é que precisamos nos organizar com campeonatos estaduais para nos enfrentar mais assim melhoramos nível de provas e performance para todos (organizadores, técnicos, assessorias, lojas esportivas, etc..,)…, penso eu também que esse cenário ajuda a medir o quão nossos treinos estão sendo eficientes para atingir os objetivos, isso vale para todos atletas amadores e profissionais.
Além disso para dar continuidade ao Trail no Brasil precisamos trabalhar, motivar e incentivar mais pessoas para prática, tornar mais conhecido o esporte.

Um outro ponto positivo ao meu ver é que os gringos nos conhecem sabem que tem brasileiros bons correndo montanhas e não estamos tão distante das realidade deles, embora tenhamos que muitas vezes tirar leite de pedra para realizar os treinos específicos, já que não temos na porta do nosso quintal as altas montanhas.

Qual prova você indicaria para uma Maria?
Marias eu gosto de muitas provas, porém a minha melhor experiência nacional foram 3 provas nas quais eu pude desfrutar de tudo: boas trilhas, confiança, segurança, respeito e cuidados com atleta, foram: Faccat Trail, Brasil Ride Botucatu e Indomit São Bento do Sapucaí.

Qual seu maior sonho dentro do trail?

PERFORMANCE! Gosto de fazer jus ao tempo e força que dedico aos treinos e sim eu curto competir e me divirto muito com tudo isso. Aliás é mais divertido do que difícil uma vez que se está preparado/treinado eu sempre aproveito todos os caminhos e competições que me coloco com muita alegria nas pernas e no coração principalmente.

Na sua percepção, ser trailrunner é…
Fazer parte do todo que envolve a natureza que nos ensina o tempo todo como se comportar perante a ela, é se colocar nos desafios com respeito por tudo e todos, é preciso ter a certeza que não é o 1.º e nem o último lugar que determina quem a gente é, mas como estamos realizando a jornada.

Por que você indica o trailrunnig como prática esportiva?
Porque, a natureza e a montanha tem conexão direta com seu eu interior…, ela te coloca em competição direta consigo mesmo, de uma maneira boa, gostosa as vezes dolorosa e bastante suada.
Aposto que todo mundo o tempo todo vivência essa competição, vou dizer que é a minha melhor competição quando eu enfrento a mim mesma, meus anjos e monstrinhos saem, rs nada melhor que conhecê-los, enfrentá-los e conseguir dominar e aprender com cada um deles.
A sensação que dá que quando saio das trilhas e montanhas é que levei uma boa “surra”, me mostra o quão eu preciso aprender a cair e a me levantar repetidamente perante a grandiosidade da vida, e que somos apenas parte dela, semente que Deus plantou perante ela no qual precisamos respeitar, merecer, cultivar e agradecer por tudo que temos principalmente a oportunidade de vivenciá-la e praticá-la. Sou um ser humano melhor depois que comecei a prática do Trail Run isso é fato e transformador.

Sem palavras para te agradecer Lígia. Tua experiência, com certeza, nos impulsionou a “desafiar” cada vez mais o nosso “eu” interior. Temos muito mais para dar, com certeza. Desejamos que teu caminho seja longo e que continues nos representando assim, com essa força!

Obrigada!

Maria´s da Trilha


 

A conversa com a “Dama de Ferro”

Ela é uma trailrunner experiente, acostumada a enfrentar provas duras, e tem muitas conquistas em seu currículo. Após a conclusão da UTMB-USCHUAIA, na qual sagrou-se Vice-campeã, entramos em contato com a Cal Nogueira, natural de Ouro Preto – MG, Oficial de Justiça, mãe de dois filhos (casal), uma Maria da Trilha conforme manda o figurino.

Hoje ela vai nos contar como vive a relação com o trailrunning assim como suas tarefas diárias como mulher, mãe e trabalhadora do Brasil. Aproveitem e embarquem de cabeça na história desta mulher chamada com carinho pelos seus amigos  mineiros e conhecida a nível de Brasil como a “Dama de Ferro”.

Como conheceu o trail run?
Na verdade desde criança, já praticava o trail run, só não sabia! Passei boa parte da minha infância, correndo e me divertindo com meus primos, em uma região muita bonita de Minas Gerais, chamada Serra do Cipó. Ali a brincadeira era desbravar; atravessando o Rio Cipó, escalando as pedras, abrindo as trilhas A aventura era certa e quem chegava por último era “a mulher do padre”…rsrsrsr

O que motivou você a praticar o trailrunnig na íntegra?
Sempre fui muito ativa e gostei de praticar esportes. Antes de iniciar na corrida treinava para competições de natação em águas abertas de 1500 a 3000 metros. A convite de uma amiga fiz um treino forte de 8km e fiquei uma semana sem conseguir andar direito, mas fui insistindo pelo prazer que senti. Comecei com a corrida de rua e pista, mas mesmo ganhando as provas de 5km até 10km, sentia que estava faltando alguma coisa. Fui convidada para alguns treinos, nos parques e trilhas de Ouro Preto, sofria muito com as subidas e reclamava (era o meu fantasma), mas a paisagem em constante transformação me encantava e no final dos treinos estava sempre feliz,
como se uma força gigantesca renascesse em mim. Com o passar do tempo e muito treinamento principalmente de subidas, fui melhorando, descobrindo que gostava mesmo era de mato, terra, pedra, água, tudo que lembrava a minha infância. Larguei a natação e comecei a me dedicar às competições de trailrruning.

Qual foi a sua primeira prova?

Nesse período de migração natação x corrida, fiz algumas provas curtas. A primeira foi no ano de 2011 – X-terra Vale do Aço  e, logo depois X-terra Tiradentes, mas a K21 que aconteceu na região de Pedra Azul – ES é a que considero como batismo, pois me deixou fascinada, abrindo um caminho sem volta. Prova dura e linda, foram meus primeiros 21km em trilhas, conquistando o 4º lugar geral.

Qual foi a sua percepção ao realizar a primeira prova trailrunnig?

Correr em serras, montanhas, estradões, trilhas, é sempre um desafio. A natureza é surpreendente e, são justamente essas surpresas que me motivam. Quando corri em Pedra Azul e me deparei com aquela rocha imensa,
até então vista só de longe, meu coração faltou pular pra fora de tanta emoção, ali parei por alguns segundos e agradeci fazendo um gesto com as mãos, momento inesquecível! Tudo era novidade e assim é até hoje. Eu não gosto de ficar estudando minuciosamente as provas que faço, por gostar
das surpresas que vou encontrando pelo caminho, procuro aprender com a jornada, que faz com que eu tenha que dar o meu melhor, pois sempre saio mais forte de cada prova, descobrindo que ainda tenho muito a evoluir e valorizando o quanto já cresci.

Você faz parte de alguma acessória esportiva? Sim Qual? Go On Outdoor

Como são seus treinos? Fiquei anos competindo sem treinador, mas chegou um tempo que parei de evoluir e senti a necessidade de procurar um profissional. Foram três anos com o Geraldo Abreu da Funcional Trainner que me lapidou, tivemos ótimos resultados nas provas. Como gosto de mudanças, fui treinar com o Guilherme De Agostini e atualmente estou com o Rafael Bonatto da Assessoria Go On Outdoor, todos excelentes profissionais. As planilhas são montadas de acordo com as provas do calendário e realizadas na parte da manhã, acordo cedinho fugindo do sol e calor, pois prefiro os dias frios; depois vou para a academia, onde faço treinamento funcional, aulas de
pilates e meditação. Sou privilegiada em morar nessa cidade rodeada de ladeiras, serras, cachoeiras… Posso escolher a 200m da minha casa, se treino no asfalto, estradões de terra batida, nos parques ou nas trilhas.

Como concilia as tarefas do dia-a-dia, os treinos e as competições?

Sou disciplinada e agitada, não paro nunca e consigo tempo pra tudo…rsrsr. Meu dia começa cedinho. Treino na parte da manhã e depois me organizo para entregar as intimações. Nas provas internacionais aproveito para gozar uns dias de férias e fazer turismo, já as que acontecem no Brasil, combino com certa antecedência com os colegas de trabalho, fazendo troca de plantão quando necessário.

O que você pensa à respeito do acompanhamento nutricional para os treinos e competições de trailrunning?

Sem dúvida, o acompanhamento nutricional é fundamental na evolução do atleta, e para mim não foi diferente. Em um período de três anos com a mesma nutricionista Dra. Ana Flávia Martins testamos vários tipos de dieta e fomos adaptando pra mim. Atualmente me sinto muito bem.  Estou mais magra e com pouca gordura corporal, sinto uma melhora absurda na recuperação depois dos treinos e provas, e ainda fazendo alguns ajustes no que comer nas competições pra não ter enjoos. Optei por uma nutricionista por não gostar muito de suplementação, sempre preferi os alimentos de verdade, doados pela natureza..

Como é a sua alimentação pré, durante e pós prova?
Não sou gulosa, gosto de pouca comida e de comer quando estou com fome, mas na semana de competição faço um esforço e fico mais disciplinada. Deixo um pouco de lado as verduras e sementes, dando preferências aos ovos, carnes vermelhas, frango e peixe. Meu carboidrato tiro de legumes variados: Batata doce, mandioca, inhame, batata baroa, etc… Macarrão ou arroz branco deixo para os dois dias que antecedem a prova. Na manhã da prova banana, aveia, canela, ovos mexidos com açafrão e o café puro sem açúcar com óleo de côco.
Durante a prova não consigo tomar mais que três saches de gel, gosto de queijos, salame, azeitona, tomatinho, amendoim, maça (tudo em pequenas porções). Atualmente tenho tido bons resultados com a Palatinose que uso 15mim antes da largada e levo outra já preparada na garrafinha com uma
pastilha de Hidroeletrolítico Gu , não esquecendo nunca a hidratação.
Pós prova vale uma cervejinha Puro Malte, carnes, massas, saladas, sopa e tudo que o estômago aceitar.

Quais provas te marcaram mais?
Sem dúvida a minha favorita ainda é Peneda-Gerês trail Adventure, que acontece na cidade de Portugal (Parque Nacional de Peneda-Gerês), onde participei por dois anos consecutivos conquistando o bi campeonato.

Outras como Lá Missión (Passa Quatro – MG);

Deserto do Atacama (Chile);

Zegama-Aizkorri Mendi Maratoia(Espanha),

MIUT – Ilha da Madeira

e o UTMB Ushuaia (Sul da Patagônia Argentina)

Todas pelo desafio em serem únicas em dificuldade técnicas, paisagens maravilhosas e organização, mas a que realmente me marcou foram os 100km da Ultra Maratona dos Perdidos,

na primeira tentativa, tive altos e baixos, só Deus e meu amigo Valmir Lana, sabem o que passei, fui renascendo das cinzas, administrando para não perder a segunda colocação geral. Aprendi muito com a dor e a capacidade de superar, voltei no ano seguinte para corrigir todos os erros, sendo a campeã e recordista da prova.

Qual será seu maior desafio em 2019?
Ainda fresquinha na mente e na alma, a primeira edição Ushuaia By UTMB (05-07 Abril, 2019), vai ficar para sempre na memória. Foi uma prova desafiadora e única, pois não sei se nas próximas edições a natureza vai presentear os corredores com a beleza da neve. Foi uma experiência incrível, onde tudo para mim era desconhecido. Passamos por terrenos alagados (charco) e lama, misturada com gelo e neve durante quase todo o percurso do FBT- 70km, levando muitos escorregões. Gostei muito da prova, achei bem marcada, Staffs prestativos e atenciosos, pontos de apoio suficientes com comida e bebida quente e uma organização preocupada com a segurança do atleta.

Posso ressaltar pontos negativos, como por exemplo o local da largada e chegada, uma melhor marcação para a noite ( uma vez que a neve cobriu algumas estacas). Poderiam ter pedido o uso de grampones nos equipamentos obrigatórios ou sugeridos, são pequenos detalhes que podem ser melhorados.

O meu objetivo era fazer uma prova progressiva e cruzar bem a linha de chegada, estava confiante no meu treinamento e com a sensação que correria bem; meu maior medo era o vento forte e a maior preocupação era acertar na vestimenta devido às baixas temperaturas em torno de 3º- 4º.

Cheguei no “Fin Del Mundo” uma semana antes da prova e fiz alguns passeios, estava frio, e a neve aparecia somente nos cumes. No outro dia, treinei em um terreno arenoso e úmido, com muitas pedras soltas, subindo o Glaciar Martial, que fica bem próximo do centro, queria sentir a respiração, se o corpo aqueceria rapidamente e a dificuldade do terreno. Creio que sem a presença da neve a prova seria mais rápida, mantendo as dificuldades técnicas, mas sem perder a beleza.
Na quarta-feira choveu na madrugada e o tempo mudou, trazendo frio e neve. Fui acompanhando as mudanças do clima, que foi só piorando e foi me dando muito medo ao mesmo tempo em que me sentia feliz em correr na neve.

E agora o que deveria vestir, como me hidratar, como me alimentar para não perder a energia?! Ao mesmo tempo em que tentava tomar decisões, o medo se misturava, com alegria, dor de barriga, forte emoção… o sonho estava começando a se realizar!
Não consegui dormir bem na noite anterior a prova, estava ansiosa e agitada. Normalmente esses sintomas, desaparecem na largada, que sempre é forte, como uma explosão de adrenalina acumulada…rsrsr

Mas dessa vez sai mais lenta, cautelosa, esperando uma resposta do corpo. Em momento algum me preocupei com o ritmo; deixei ser guiada pela sensação de esforço, sentindo a respiração e as passadas firmes. Passamos por florestas de árvores baixas e gigantes, tudo branquinho… As trilhas eram boas para correr (lembrei-me da floresta da Tijuca, pelas raízes fincadas na terra), campos abertos e alta montanha, onde a água descia formando riachos, me deparando com um lago encantador na primeira subida do “Cerro Del Medio”, acredito que foi o Laguna Margot, que me deixou simplesmente paralisada. Pensei em como temos paraísos nesse mundo.
Aos poucos tudo foi se encaixando, o corpo estava aquecido e mais ou menos entre os quilômetros 18-20 teve a divisão dos atletas de 50km e os de 70km que largaram juntos.
Começando a primeira subida, sem sair do meu ritmo de prova, passei duas atletas buscando a segunda posição e conseguindo mantê-la até o final.
Vento, nevasca, chuva e muita neve, mas em momento algum sofri com o frio, com certeza acertei na roupa.

Alimentei muito pouco: 3 saches de gel, 2 pedaços de chocolate amargo; uma porção de amendoim salgado que havia levado, no mais foi o que a organização ofereceu, optando por maça, banana, queijo, salame, marmelada, café e Coca-Cola, muita água e repositor.

Em todo o percurso, me senti muito confortável com o clima; mente forte e feliz, o corpo respondia bem e as surpresas inimagináveis serviam de motivação. Fiquei emocionada por vários momentos e agradecia a oportunidade de estar vivenciado tudo aquilo, pensava que estava onde deveria estar que era o meu momento e não permitia a entrada de nenhum pensamento negativo, ia levando comigo os amigos, os filhos, meus antepassados, lembranças e canções que me fazem rir. Em todos os PCs que
chegava, imaginava a torcida de quem me acompanhava no aplicativo Live Info, e me permitia receber essa energia boa, que me empurrava montanha acima.

Foi uma prova muito técnica e travada; subindo os pés afundavam na neve e descendo levava muitos tombos. Na última montanha já com 64km nas pernas, não tive escolha a não ser descer de skibunda, foi arriscado, mas muito divertido…rsrsrs.

Ao entrar na última floresta, um prazeroso single Track, sabia que faltava pouco, não sei explicar o que aconteceu, mas estava sobrando energia.
Corri com todas as forças e logo estava no asfalto, corria ainda mais, queria chegar e celebrar!
Considero que foi o meu maior desafio, mas também a minha melhor prova. Redondinha, quase perfeita!

Completei em 10h25min7s, conquistando o segundo lugar geral feminino; primeiro na categoria e 24º geral.

Como você vê o momento do trailrunnig no Brasil?
Ainda evoluindo, uma coisa que me incomodada é a figura do Staff, no meu ponto de vista o Staff , que é a pessoa querida e mais importante da competição, ele tem o papel de ser um apoiador do atleta, auxiliando nos PCs e não servir de marcação.
Marcação deve ser feita com placas, fitas, estacas, etc e o atleta sim, responsável por segui-las.
Sinto também a falta do envolvimento da comunidade, colaborando com o organizador e participando na torcida, motivando o atleta. Tenho o sonho de ver mais crianças e mulheres nas trilhas.

Foi pensando em incentivar a prática feminina do trailrunnig na região de Ouro Preto e distritos, que criei o grupo “Trilhas das Minas”, já vamos para o quarto treino juntas. Os encontros são em locais diferentes, no intuito de divulgar as belezas da região. Atualmente temos 87 mulheres cadastradas, mas o trabalho está só começando.

Qual prova você indicaria para uma Maria?
Peneda-Gerês Adventure, organização impecável, realizada em etapas de 4 e 7 dias. Cada dia um novo percurso e novas paisagens. A inscrição inclui transfer, hospedagem e alimentação, ou seja, o atleta fica por conta de correr e se divertir. Ainda oferece passeios para acompanhantes.

Qual seu maior sonho dentro do trail?

Sinto que já realizei. Comecei a correr com 42 anos, sempre disputando na geral com meninas bem mais novas, isso é muito bom, mas a minha maior
conquista é o carinho e respeito das pessoas que me acompanham. Servir de inspiração é gratificante.

Na sua percepção, ser trail runner é …
Ser livre. Me sinto o quinto elemento da natureza: Terra, água, ar, fogo e a Cal!

Por que você indica o trailrunnig como prática esportiva?
Não gosto de rotina e ainda não descobri onde encontrar tanta novidade a cada km. Correr atravessando rios, segurando cordas, subindo e descendo as montanhas, passando por florestas, campos abertos… é diversão garantida, aventura constante.

As Maria´s da Trilha agradecem a tua disponibilidade para nos mostram a tua valentia e coragem. Que possamos nos encontrar ainda várias vezes para compartilharmos este esporte lindo. Parabéns por esta trajetória linda!

Ultra Machu Picchu Trail UMPT – Relato de Taís Damasio

Ela escolheu a data do seu aniversário para se tornar ultramaratonista de montanha. Resolveu ir correr a Ultra Machu Picchu que ocorreu no úlitmo dia 13/04/2019. Foi a única mulher a completar a distância e se consagrou campeã!

Fomos atrás da taís para que compartilhasse conosco o seu sentimento, divirtam-se, o relato está lindo.

A expectativa era grande. Correr acima de 4500m de altitude, por si só, já seria um desafio gigante. Eu não sabia como meu corpo reagiria a diversas horas em atividade em um ar tão rarefeito. A expectativa virou medo, quando dois dias antes, ao subir a Montanha das Sete Cores (5.036m de altitude) com o objetivo de aclimatar, eu tive o tal do “mal da montanha”: dores horríveis de cabeça, pressão muito forte na nuca e vômitos intermináveis. Um pavor! Se isso acontecesse na prova, eu estaria fora! Era impossível ficar em pé.

     Chegou o dia. Às 4hs da madrugada parti de Mollepata em direção a Comunidad Kamas, local da largada. As 6hs começou a prova, com 3.250m de altitude, frio e  muito vento. Alguns brasileiros amigos largaram comigo, mas logo nos separamos e dali em diante foi uma prova solitária, raros alguns momentos. Já no Km 6 tive que atravessar um rio pela altura da canela. Resolvi parar e tirar o tênis. Achei muito arriscado molhar o pé, num clima tão frio e assim permanecer por muitas horas, tendo tantos kms pela frente. Escolha certa!

     Do 6km em diante foi só subidas. Logo no km 8 comecei a subir a primeira montanha, chamada Kamas, que em 9km de subida fez eu chegar a 4.718m de altitude, 1.790m de altimetria e uma paisagem de encher os olhos e o coração. Alcancei o topo no km 17, com quase 4 horas de prova. Ali era para ter um ponto de hidratação e alimentos. Entretanto, não havia nada e eu quase não tinha mais água e suplementos. O que não tem solução, solucionado está. Condicionei meu corpo e mente para chegar até o km 30, onde haveria o próximo PC. Segui firme e o melhor, feliz.

    Logo encontrei um atleta das 100 milhas chorando agarrado numa pedra. Perguntei se estava tudo bem, se precisava de algo. Ele me disse que tinha fobia de altura, que embora fosse ultratrail nunca havia corrido em meio a tantos penhascos. Sentei do lado dele e disse que ele não tinha opção, que teria de enfrentar aquilo porque ninguém iria tirá-lo dali antes dele morrer congelado. Eu falava e ele chorava mais. Peguei na mão dele e disse que ele iria descer comigo. E lá fomos, pé por pé. Ele seguiu chorando e eu não parei de falar nenhum segundo, sempre tentando mostrar o quanto tudo estava sendo transformador. Que a fobia ficaria na montanha e que ele sairia daí muito mais forte. A descida era absurdamente técnica. Custamos para ficar em pé. Chegamos a levar 50 min para descer apenas 2km. Terminamos bem, ele mais forte e eu muito feliz em ter sido útil. Segui.

    No Km 23 encontrei uns nativos assando batata no chão. Uma criança veio me oferecer uma. Que espetáculo! Nunca esquecerei o sabor. Comi com casca e nem me importei com o fato de estarem com um pouco de barro. Aliás, comi 4!

    Mais adiante resolvi para numa água corrente em meio as pedras para encher todas garrafinhas de hidratação e suplemento. Que tranquilidade! Estava bem abastecida.

    Nesse ponto encontrei um italiano passando muito mal pela altitude. Parei mais uma vez. Tentei ajuda-lo com tudo o que tinha: folha de coca, oxigênio (levei um pequeno cilindro comigo para essas emergências) e água florida (que eles usam muito para dor de cabeça da altitude).

    Segui bem. As paisagens eram lindas demais, de tirar o fôlego. Mas o terreno era duro demais. Pedras e pedras. Umas gigantes que precisavam ser escaladas, outras menores que ao menor descuido nos levavam ao chão.

    Cheguei no Km 30 com 7h30min de prova. Entrei no PC e só consegui comer queijos e amendoim. Havia sopa, mas achei o cheio muito forte e resolvi não arriscar. Nesse momento soube que eu era a 1ª colocada. Nem acreditei! Logo chegou um rapaz das 100 milhas e me disse que a 2ª colocada estava logo ai. Resolvi não me demorar (kkkk) e logo comecei a subir a 2ª montanha. Meu Deus! Foram intermináveis 13km subindo. Nessa parte da prova encontrei muita gente. Eram turistas que falavam todas as línguas imagináveis. Todos falavam comigo, aplaudiam e davam aquela força. Eu não atendi nem a metade do que me disseram, mas respondi tudo. Era tão bom ver gente! Também encontrei muitos cavalos descendo as montanhas carregando alimentos para os nativos. Que vontade de montar em um e fazê-lo subir (kkkk). Quem não teria, né!

Cheguei ao topo no km 43, com 4.618m de altitude e 12h44min de prova. A partir dai que a coisa ficou tensa. Escureceu e eu, novata no ultra trail descobri, só nesse momento, que minha lanterna era de alcance médio. Eu estava sozinha, numa escuridão, com uma montanha gigante e imponente do meu lado, e minha super lanterna me permitia ver uns 10 passos a minha frente. Ou seja, além de haver poucas marcações eu não conseguia enxergar as poucas que tinham.

Resolvi me guiar pelo rio e pelos cocôs de cavalos e vacas. Afinal, se os animais por ali passavam é porque haveria caminho e eu chegaria em algum lugar. Todo cuidado era pouco. A região é repleta de penhasco e qualquer descuido poderia ser fatal.  Assobiava muito na esperança de encontrar alguém perto. Mas nada! Nem lanternas eu via. Rezei tanto, mas tanto, para estar no caminho certo. Cruzei o rio inúmeras vezes. Me vi perdida várias outras. Mas desespero não iria resolver nada. Uma hora alguém apareceria.

Por vezes, via vultos e me enchia de alegria, mas logo percebia que era um cavalo ou uma vaca. Foram 6 horas assim, até chegar a base da montanha. Que felicidade! Ainda mais que tinha uma PC.  Recebi uma benção de um inca que me revigorou. Que povo mais místico e cheio de energia! Comi pão puro e café preto. Nesse momento soube que 5 mulheres já haviam desistido. Guardei uns pães no bolso da bermuda mesmo e segui.

A montanha tinha acabado, mas os penhascos não. Tremia muito as pernas de cansaço. Por vezes elas não me obedeciam. Cai muito. Quando batia o medo, eu o espantava pensando no quanto tinha sido duro chegar até ali e no quanto eu tinha sido forte. Alinhava a mente e me reequilibrava.

Cheguei no km 51, onde havia o ultimo PC com alimentos. O organizador da prova estava lá e me disse que faltavam 15km (10km seguindo o rio, dentro do Caminho Inca e mais 5km até chegar ao povoado de Mollepata). Fiz as contas na hora e fiquei tão aliviada porque a prova terminaria no km 66. Mas não foi bem assim. Terminei os 10km do Caminho Inca e nada de sinal de luz. Segui por mais 8km de sobe e desce, com terrenos sempre muito técnicos. Comecei a ver luzes, mas muito distantes. Entrei finalmente num estradão que, em 9km intermináveis, me levou a Mollepata, local da chegada. Como era 1h07min da madrugada, havia pouquíssimas pessoas. Tive uma prova e uma chegada totalmente solitária, mas nunca havia me sentindo tão cheia de vida!

Antes de mim, apenas 3 homens cruzaram a linha de chegada. Fui a única mulher a terminar a prova, sendo que a última desistiu no km 60.

UMPT tem sido considerada a prova mais desafiadora e perigosa do mundo. Não é a toa. Há muitos penhascos por todos os cantos, o terreno é altamente técnico e há muito poucos pontos de controle. Além, de não haver sinal de telefone ou internet, o que dificulta muito a comunicação.

Por tudo isso digo, que a UMPT é linda e difícil na mesma medida e aí está a conclusão disso tudo.